Dom Filó fala sobre o surgimento do movimento black no Rio A história dos bailes Black no Rio de Janeiro é também a história de uma transformação cultural, musical e comportamental que marcou gerações. No episódio de Vim de lá – Bailes do Rio, exibido neste sábado (7), Chico Regueira e Lilian Ribeiro receberam três personagens fundamentais dessa trajetória: Dom Filó, Toni Tornado e Rômulo Costa.
Juntos, eles reconstituíram a formação do movimento Black na cidade, a partir dos anos 1970, e mostraram como aquela cultura influenciou a música, a moda, a dança e a afirmação da identidade negra no Brasil. O programa terá mais dois episódios nos próximos sábados. O ponto de partida foi a chegada da Black Music americana ao país.
Nomes como James Brown, Aretha Franklin, Marvin Gaye e Stevie Wonder atravessaram fronteiras e conquistaram a juventude negra carioca. Na época, o acesso a essas referências acontecia principalmente pelo rádio, por programas como o de Big Boy, na Rádio Mundial, e pelos discos importados vendidos em lojas da Zona Sul. Dom Filó, um dos protagonistas do movimento, contou como essas referências musicais e visuais ajudaram a construir uma nova forma de expressão entre os jovens negros.
Segundo ele, imagens de artistas americanos, capas de discos e filmes serviram de inspiração para incorporar ao cotidiano uma estética, um comportamento e uma consciência racial que ganhavam força nos Estados Unidos. "Black is beautiful" — negro é lindo — tornou-se uma das ideias centrais daquele movimento. Mais do que dançar, os jovens encontravam nos bailes um espaço de valorização da própria identidade, autoestima e pertencimento.
Toni Tornado e a influência do movimento negro americano Tony Tornado se apresentando em um festival Reprodução Um dos momentos do programa foi a participação de Toni Tornado, que relembrou a temporada de quatro anos e meio que passou nos Estados Unidos. O cantor contou que viveu de perto o período de fortalecimento do movimento negro americano e teve contato com lideranças como Stokely Carmichael e Martin Luther King, além de frequentar espaços importantes da música negra, como o Apollo Theater, em Nova York.
Ao voltar ao Brasil, Toni trouxe consigo não apenas referências musicais, mas uma nova postura diante da sociedade. O artista relembrou o impacto causado por sua aparência e pelo figurino que apresentou no Festival Internacional da Canção, com o cabelo black power, o peito à mostra e um símbolo de sol no figurino. Ele explicou que a imagem representava a união de todas as raças e cores.
A postura também provocou estranhamento em uma sociedade acostumada a outros padrões de comportamento e apresentação dos artistas negros. Dom Filó destacou a importância daquele momento para a afirmação da identidade negra no país. Para ele, a presença de Toni Tornado na televisão ajudou a ampliar o debate racial e a apresentar novas referências para a sociedade brasileira.
Os bailes eram espaços de identidade, encontro e autoestima Baile black no Rio nos anos 70 Reprodução/Vim de lá O programa também recuperou a dimensão social dos bailes. Antes da expansão das equipes de som, os jovens negros precisavam se deslocar até clubes para encontrar espaços de diversão. Muitos desses estabelecimentos eram frequentados majoritariamente pela população branca.
A partir dos anos 1970, os bailes passaram a ocupar novos territórios, aproximando as festas das comunidades e dos bairros do subúrbio carioca. Dom Filó lembrou que o movimento ganhou proporções gigantescas, com milhões de jovens circulando pelos bailes nos fins de semana. A experiência reunia música, dança, moda, paquera e troca de informações.
As roupas também tinham papel importante. Calças justas, camisas e cuidados com a aparência ajudavam a compor a identidade visual daquela juventude. Nos momentos de música lenta, os frequentadores aproveitavam para trocar de camisa, passar perfume e encontrar parceiros.
O baile, como foi lembrado durante a conversa, era uma espécie de portal: um lugar de felicidade, convivência e valorização da cultura negra. Grand Prix ajudou a levar a Black Music para o mercado Baile black no Rio nos anos 70 Reprodução/Vim de lá Outro personagem fundamental dessa história é Dom Filó, que participou da criação da equipe Soul Grand Prix, uma das pioneiras do movimento Black no Rio. A equipe teve papel importante na consolidação dos bailes e na expansão da música para além das pistas.
O grupo produziu e lançou um LP com músicas que faziam sucesso nas festas, aproximando o repertório dos bailes do mercado fonográfico. A iniciativa ajudou a espalhar o movimento para outras regiões do Brasil, especialmente para a Bahia, onde jovens também se identificaram com a estética e a proposta cultural da Black Rio. Dom Filó explicou ainda que o movimento chegou a reunir centenas de equipes de som no estado.
Para ele, a Soul Grand Prix tinha uma característica particular: era uma das equipes que incorporavam de maneira mais explícita a consciência racial à sua atuação. Rômulo Costa relembra o nascimento do funk carioca Rômulo Costa explica o surgimento da Furacão 2000 A conversa avançou até os desdobramentos da cultura Black na música popular brasileira, com a participação de Rômulo Costa, fundador da Furacão 2000.
Ele contou que a equipe surgiu em Petrópolis, inicialmente ligada ao rock pesado, mas mudou de direção depois de conhecer o universo dos bailes Black. A chegada ao Rio de Janeiro marcou a aproximação com o soul e o funk americano, tendo James Brown como uma das principais referências. Rômulo também explicou como a Furacão 2000 construiu uma identidade própria, com as famosas caixas de som brancas, que se tornaram uma marca reconhecida pelo público.
Com o passar dos anos, os bailes passaram por transformações musicais. O repertório, inicialmente marcado pelos artistas americanos, abriu espaço para produções brasileiras, novas batidas e músicas ligadas ao cotidiano das comunidades. Na avaliação de Rômulo, o funk ultrapassou as pistas de dança e passou a fazer parte de diferentes manifestações culturais, chegando até às arquibancadas dos estádios de futebol.
Ele citou como exemplo a incorporação de músicas e coreografias dos bailes aos gritos das torcidas. O produtor também relembrou a participação da Furacão 2000 na divulgação de artistas e grupos que se tornariam conhecidos nacionalmente. Segundo ele, cerca de 95% dos MCs que estavam no cenário artístico naquele momento haviam começado na estrutura da equipe.
Da Black Music ao funk: uma herança que atravessa gerações Ao reunir as histórias de Dom Filó, Toni Tornado e Rômulo Costa, o episódio mostrou como os bailes Black foram muito além do entretenimento. O movimento criou espaços de sociabilidade, fortaleceu a autoestima da juventude negra e ajudou a abrir caminhos para novas expressões musicais. A influência ultrapassou o universo dos bailes e chegou à televisão, ao mercado fonográfico, à moda, ao esporte e à cultura popular.
Décadas depois, elementos daquela estética e daquela sonoridade continuam presentes no funk e em diferentes manifestações da música brasileira. O programa também mostrou que a história do funk carioca não pode ser contada sem olhar para os bailes Black que movimentaram o Rio nos anos 1970 e 1980. Uma cultura construída nas pistas de dança, mas que deixou marcas profundas na identidade musical e cultural da cidade.
