Pai e filho juntam cachaça e café em bebida produzida no Acre Café para acordar, cachaça para... bom, cada um sabe. Em Acrelândia, no interior do Acre, pai e filho resolveram juntar os dois em uma só garrafa.

Aloísio Júnior, de 32 anos, e Aloísio David de Oliveira, de 67, estão há nove anos no ramo da cachaça e decidiram apostar em uma bebida feita com café robusta amazônico produzido na própria região. A ideia pode parecer inusitada à primeira vista, mas levou meses de testes até chegar à receita que agradou quem provou. Neste domingo (13), Dia Nacional da Cachaça, o g1 conta a história dos dois e de como o café foi parar dentro da garrafa.

✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 AC no WhatsApp O empresário de agroindústria, Aloísio Júnior, contou que a história da família com a cachaça começou em 2017, quando seu pai Aloísio David de Oliveira, conhecido como Ligeirinho, decidiu investir na produção. Naquele ano, o pai comprou um alambique, equipamento usado para destilar bebidas alcoólicas, de segunda mão, com capacidade para 250 litros.

“Meu pai já tinha uma experiência com o campo e também formação de tecnólogo em química, então, esse conhecimento técnico ajudou muito a gente. No sítio, onde hoje funciona a fábrica, a família já produzia pimenta, melancia, milho verde e cana-de-açúcar. A gente usava a cana para fazer melado, rapadura, alfenim, açúcar mascavo.

Então, já existia toda essa produção rural antes de a ideia da cachaça aparecer'', explicou. Aloísio David de Oliveira Jnior e Aloísio David de Oliveira, produzem cachaça em Acrelândia e uniram a bebida ao café robusta amazônico que também é produzido no município Arquivo pessoal Júnior, na época, morava em Rio Branco e cursava engenharia elétrica. Ele fez sete períodos do curso antes de entrar de vez no negócio da família.

Segundo ele, a primeira destilação saiu em setembro de 2017. No começo, eram apenas 20 a 30 litros por dia, com equipamentos improvisados e uma estrutura ainda distante da que existe hoje. “Meu pai começou a fazer aqui [Acrelândia].

Como eu morava em Rio Branco, eu pegava meu carro e saía vendendo de porta em porta as cachaças. E a gente foi evoluindo”, relembrou.

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Segundo Júnior, foram oito anos até a empresa chegar ao padrão exigido pelo Ministério da Agricultura. Além da falta de dinheiro para investir, a família precisou adaptar as técnicas aprendidas fora do estado às condições da Amazônia. Segundo ele, fatores como clima, solo, água e até os microrganismos presentes na região interferem na produção.

“Eles não conhecem a nossa microbiota, a nossa água é diferente, nosso solo é diferente, nosso clima é diferente”, disse. Barris de madeira usados no processo de envelhecimento das cachaças produzida em Acrelândia Arquivo pessoal Contudo, a empresa conseguiu concluir a regularização em setembro de 2025 e, agora, tem capacidade para produzir até 50 mil litros por ano. A produção atual fica entre 15 mil e 18 mil litros.

Como o café foi parar na cachaça? A ideia surgiu da própria relação da família com a produção de café em Acrelândia. Foi aí que entrou em cena Vanderlei de Lara, conhecido como Zinho, produtor do Café Lara e amigo da família.

O café usado na bebida não é destilado, é o robusta amazônico produzido no Ramal do Granada, no município. Para Jnior, unir os dois produtos fazia sentido. “Eu falei: cara, vamos juntar então a melhor cachaça com o melhor café e vamos fazer esse negócio”, relembrou; Mas o café não passa pelo alambique.

Depois que a cachaça prata está pronta, os grãos selecionados são colocados em contato com a bebida para uma infusão. O café escolhido é especial, do tipo robusta amazônico, com torra média e sem fermentação. A intenção é retirar dos grãos o máximo possível de aroma e sabor e transferir essas características para a bebida.

O processo leva cerca de 30 dias. Depois desse período, a cachaça passa por filtragem e os grãos são descartados. Garrafas com café robusta amazônico em uma das etapas da produção da bebida Arquivo pessoal Júnior explica que, por causa da infusão e da adição de açúcar, a bebida deixa de ser classificada tecnicamente como cachaça e passa a ser uma cachaça mista.

O teor alcoólico também cai de 38% para 35%. A bebida pode ser consumida pura ou usada no preparo de drinks. Nove meses de testes Antes de chegar ao público, a receita passou por vários testes.

A família experimentou cafés com diferentes níveis de torra, além de versões fermentadas e tradicionais. Os primeiros protótipos tinham apenas cinco litros. A cada teste, a bebida era provada e ajustada.

Ainda de acordo com Júnior, Vanderlei Lara ajudou a avaliar o resultado do ponto de vista do café, enquanto dois mixologistas contribuíram para analisar a combinação com a cachaça. “Fomos testando devagarzinho, fizemos teste aí com cinco litrinhos, fizemos degustação, mandamos para o seu Vanderlei como especialista de café para saber a questão do sabor do café. O processo foi todo assim até chegar ao que queríamos'', explicou.

Alambique de cobre usado na produção das cachaças em Acrelândia Arquivo pessoal Depois de meses de testes, veio a prova com o público. A família levou 250 garrafas para a Expoacre deste ano, uma das principais feiras agropecuárias de Rio Branco. “Todas as garrafas que levamos foram vendidas.

Então a venda da bebida foi a prova real de que a gente podia colocar para a produção. A gente nunca faz uma cachaça sem antes testar com o público em si”, afirmou. Nome carrega a identidade do estado Se o objetivo era colocar o Acre dentro da garrafa, o nome escolhido não poderia ser mais direto.

Aquiry significa 'rio dos jacarés' na língua do povo indígena Apurinã e era a forma como os indígenas se referiam ao rio que hoje conhecemos como rio Acre. O nome também está ligado à origem do próprio nome do estado. Foi essa identidade que pai e filho quiseram levar para a marca.

Para Júnior, a escolha ajuda a diferenciar uma bebida produzida no Acre de outras cachaças tradicionais do país. “Não tinha nome melhor do que Aquiry. É o nome mais acreano possível.

Então hoje a gente tem uma cachaça genuinamente acreana, feita por acreanos, em solo acreano e com um nome acreano”, afirmou. A referência à Amazônia também aparece nos sabores. A linha tem oito versões: prata, ouro, cerejeira, jucá, jambu, café, castanheira e jatobá.

Cachaça mista com café robusta amazônico produzida em Acrelândia Arquivo pessoal A de jucá, feita com a semente do pau-ferro, tem um sabor mais amadeirado e seco e, segundo Júnior, lembra o whisky. A de cerejeira é mais suave e adocicada, enquanto a de jambu deixa na boca a sensação de formigamento característica da planta. A família também aposta na castanheira, uma das referências mais conhecidas da Amazônia, e no jatobá.

Há ainda a versão com carvalho, uma das opções mais tradicionais da linha, além da cachaça prata, branca e sem passagem por madeira. Do sítio no interior do Acre para outros países Depois de anos vendendo a produção dentro do Acre, a família agora começa a olhar para fora do estado. A bebida já é distribuída no estado por uma empresa parceira e há negociações para ampliar a presença em Rondônia, além de contatos no Sul do país.

Ainda de acordo com Júnior, também existem conversas com parceiros em Lisboa, em Portugal, e no Peru. ''A ideia por enquanto é alcançar inicialmente outros mercados da América do Sul, como Bolívia e Peru, antes de pensar em destinos mais distantes'', pontuou. O desafio, agora, é acompanhar o interesse sem perder a capacidade de produção.

A expectativa da família é chegar a 40 mil litros em 2027 e, depois, alcançar a capacidade de 50 mil litros por ano. VÍDEOS: g1