Uma criança de dois anos entra na sala, guarda os próprios pertences, escolhe uma atividade, pega o material de que precisa e começa a trabalhar. Em outro ponto do ambiente, uma criança mais velha realiza uma tarefa diferente. A professora observa, orienta quando necessário, apresenta novos desafios, mas não ocupa permanentemente o centro da experiência.
Para quem está acostumado à imagem tradicional da Educação Infantil, com crianças da mesma idade fazendo a mesma atividade, ao mesmo tempo e sob o comando de uma professora, a cena descrita acima pode parecer incomum. Para a educação Montessori, no entanto, é justamente aí que começa uma parte importante da aprendizagem.
Há mais de quatro décadas, essa concepção faz parte da história da escola Upaon-Açu, em São Luís, que nasceu em 1982 inspirada nos princípios desenvolvidos pela médica e educadora italiana Maria Montessori. A proposta colocou a instituição entre as pioneiras na adoção da educação montessoriana no Maranhão e permanece presente especialmente nos primeiros anos da trajetória escolar. “Quando se fala em Montessori, algumas pessoas ainda imaginam apenas uma metodologia com materiais diferentes.
É muito mais do que isso. Estamos falando de uma concepção de educação que olha para a criança como alguém capaz, que precisa ser estimulada a pensar, fazer escolhas, assumir pequenas responsabilidades e construir progressivamente a própria independência. O que começou há mais de quatro décadas continua muito atual porque autonomia, pensamento crítico e capacidade de resolver problemas são competências cada vez mais importantes”, destaca Bruno Cicalise, diretor-geral da escola Upaon-Açu.
Para a vice-diretora Camila Balluz, que estudou no Upaon desde os primeiros anos da vida escolar, manter essa proposta ao longo das gerações não significa ensinar hoje exatamente como se ensinava na década de 1980, mas preservar princípios enquanto a escola acompanha as transformações da educação. “Existe uma diferença entre tradição e imobilidade. Nós temos uma tradição montessoriana, mas a escola está em permanente movimento.
Incorporamos novos conhecimentos, tecnologias e práticas pedagógicas sem abandonar princípios que estão na nossa origem: respeito ao ritmo da criança, autonomia, responsabilidade, convivência e participação ativa na aprendizagem”, explica. Mas, afinal, como funciona uma escola Montessori? Uma das diferenças começa pelo próprio espaço.
Na pedagogia Montessori, fala-se em “ambiente preparado”: um espaço organizado para que a criança consiga encontrar materiais, utilizá-los e, progressivamente, realizar atividades com menor dependência do adulto. Os objetos ficam acessíveis, há materiais manipuláveis e atividades pensadas de acordo com diferentes etapas do desenvolvimento. A professora também assume uma posição diferente.
Em vez de ser apenas aquela que transmite conteúdos simultaneamente para toda a turma, passa a atuar como observadora e mediadora, à medida que apresenta materiais, acompanha o desenvolvimento individual e identifica quando a criança está pronta para novos desafios. Materiais concretos e manipulativos são outro elemento característico.
Antes que determinados conceitos sejam trabalhados apenas de forma abstrata, a criança pode experimentá-los com as mãos, observar diferenças, comparar, ordenar, contar, encaixar, classificar e estabelecer relações. A American Montessori Society aponta entre os componentes centrais da abordagem o ambiente preparado, os materiais específicos, o trabalho conduzido pela própria criança e as classes com diferentes idades.
Na Educação Infantil do Upaon-Açu, a proposta envolve áreas como Vida Prática, Desenvolvimento Sensorial, Linguagem, Mente Matemática, Educação Cósmica (que reúne conhecimentos de Ciências, História e Geografia), psicomotricidade, música, ensino bilíngue e desenvolvimento socioemocional. Por que uma criança de dois anos aprende a fazer coisas sozinha? Na prática, algumas das experiências Montessori parecem muito simples aos olhos de uma pessoa adulta.
Transportar objetos; organizar o que utilizou; servir água; cuidar de plantas; manipular utensílios adequados ao tamanho da criança; guardar materiais; abrir e fechar recipientes; escolher uma atividade e concluí-la. Mas o objetivo pedagógico está justamente por trás da aparente simplicidade. Atividades conhecidas como de Vida Prática trabalham coordenação motora, concentração, organização, sequência de ações, responsabilidade e independência.
Em referências da educação Montessori, tarefas como preparação de alimentos, organização e cuidado do ambiente são associadas ao desenvolvimento do controle motor, da concentração e da autonomia física.
No método Montessori, os alunos da Escola Upaon-Açu aprendem em ambientes totalmente adaptados para estimular a autonomia das crianças desde os primeiros dias da vida escolar Ascom/Escola Upaon-Açu “Quando uma criança pequena percebe que consegue realizar uma tarefa por conta própria, não estamos trabalhando somente aquela habilidade. Existe um processo de construção da autoconfiança, da concentração e da capacidade de organizar uma sequência de ações.
A criança deixa de ser apenas alguém que recebe comandos e começa, progressivamente, a compreender o que consegue fazer por si mesma”, detalha Andréa Alves, supervisora pedagógica da Educação Infantil e do Ensino Fundamental Anos Iniciais no Upaon. Isso não significa deixar a criança “fazer o que quiser”. A liberdade Montessori ocorre dentro de um ambiente estruturado, com regras, limites e materiais adequados ao estágio de desenvolvimento.
“A autonomia é construída, não imposta. O adulto primeiro prepara o ambiente, apresenta, acompanha, observa e oferece segurança. Aos poucos, interfere menos quando percebe que a criança já consegue realizar determinada ação.
É muito bonito observar quando ela descobre: ‘eu consigo’. Essa percepção acompanha outras aprendizagens”, acrescenta Andréa. Por que as crianças não precisam ter exatamente a mesma idade?
O conceito das turmas agrupadas Outro elemento que costuma chamar a atenção das famílias são as turmas agrupadas. Na tradição Montessori, a convivência entre crianças de idades diferentes é intencional. A American Montessori Society considera as classes multi-idade um dos elementos centrais da metodologia e trabalha, na Educação Infantil, com agrupamentos que podem compreender aproximadamente três anos de desenvolvimento.
No Upaon-Açu, a organização da Educação Infantil começa com crianças pequenas e considera idade, autonomia e desenvolvimento na composição e no trabalho dos agrupamentos. Na escola, é possível receber crianças a partir de 1 ano e 6 meses nas primeiras turmas. A diferença de idade deixa de ser vista apenas como uma dificuldade e passa a funcionar como uma possibilidade pedagógica.
Os menores observam os maiores. Os mais experientes consolidam habilidades, tornam-se referências e podem ajudar os colegas. Ao mesmo tempo, cada criança pode avançar nas atividades considerando seu próprio estágio de desenvolvimento.
“Uma turma agrupada reproduz algo muito natural da própria vida. Fora da escola, nós não convivemos exclusivamente com pessoas que nasceram no mesmo ano. Quando colocamos crianças em diferentes momentos de desenvolvimento no mesmo ambiente, criamos oportunidades de observação, cooperação, respeito e aprendizagem entre pares”, aprofunda Naiane Santos, coordenadora pedagógica da Educação Infantil.
Segundo a educadora, isso exige atenção individualizada da equipe pedagógica. “Não significa esperar que todos façam a mesma coisa porque estão na mesma sala. O nosso olhar está voltado para aquilo que cada criança já conquistou e para qual pode ser o próximo desafio.
Há crianças que aprendem observando outras; há aquelas que, ao ajudar um colega, consolidam aquilo que já aprenderam. É uma dinâmica muito rica”, atesta. Equipe de coordenadoras, Naiane dos Santos e Lisiane Martins, e a supervisora da Educação Infantil da Escola Upaon-Açu, Andréa Alves.
Elas são responsáveis por acompanhar de perto o desenvolvimento e a aprendizagem das crianças Ascom/Upaon-Açu Autonomia também ajuda a desenvolver o cérebro? A autonomia é frequentemente associada à formação emocional da criança, mas há uma dimensão cognitiva importante nesse processo.
Escolher entre possibilidades, manter a atenção em uma tarefa, seguir uma sequência, perceber um erro, tentar novamente, controlar impulsos e concluir uma atividade mobilizam habilidades relacionadas às chamadas funções executivas: processos cognitivos importantes para planejamento, atenção, memória de trabalho, flexibilidade mental e autorregulação. E as evidências acumuladas sobre a educação Montessori têm crescido.
Uma revisão sistemática publicada em 2023 na Campbell Systematic Reviews analisou 32 estudos, selecionados entre mais de 2 mil trabalhos inicialmente identificados, comparando estudantes da educação Montessori com alunos da educação convencional. O resultado geral apontou efeitos positivos tanto em dimensões acadêmicas quanto não acadêmicas. No conjunto dos resultados acadêmicos, os estudantes Montessori apresentaram desempenho médio cerca de 0,24 desvio-padrão superior.
Em matemática, o efeito encontrado foi de 0,22 e, em linguagem, de 0,17. Nos resultados não acadêmicos, o efeito combinado chegou a 0,33 desvio-padrão, enquanto, especificamente em funções executivas, foi de 0,36. Os autores classificaram as evidências para matemática e linguagem como de alta qualidade e para funções executivas como moderadas.
Os pesquisadores ressaltam que os resultados não significam que toda escola que utilize o nome Montessori produzirá automaticamente os mesmos efeitos, até porque a implementação do método varia entre instituições. Ainda assim, a revisão concluiu que, de maneira geral, a educação Montessori apresentou impacto positivo e relevante em resultados acadêmicos e não acadêmicos quando comparada à educação tradicional.
Aprender sem perceber que está “estudando” Um dos princípios da abordagem é transformar conceitos abstratos em experiências concretas. A criança manipula quantidades antes de lidar apenas com símbolos matemáticos; explora formas, dimensões, texturas e relações espaciais; desenvolve movimentos finos que posteriormente serão importantes para a escrita; amplia o vocabulário enquanto classifica e descreve aquilo que percebe.
Materiais sensoriais, letras de lixa, alfabetos móveis e diferentes recursos manipuláveis fazem parte desse universo. A lógica é permitir que mãos, sentidos e pensamento participem conjuntamente do processo de aprendizagem. “Na Educação Infantil, nós não queremos antecipar etapas simplesmente para dizer que a criança chegou mais rápido a determinado conteúdo.
Queremos construir bases sólidas. Concentração, coordenação, linguagem, raciocínio, organização e autonomia formam uma estrutura que será utilizada durante toda a vida escolar. O conhecimento acadêmico surge dentro desse processo”, complementa a coordenadora Naiane Santos.
É por isso que, para as famílias que entram pela primeira vez em um ambiente Montessori, uma criança concentrada transferindo pequenos objetos de um recipiente para outro pode estar fazendo muito mais do que parece. Ela está treinando movimentos, atenção, precisão, planejamento e persistência. Uma médica que mudou a maneira de enxergar a infânciaA história dessa concepção de educação começa com uma mulher que rompeu barreiras muito antes de transformar a pedagogia.
Maria Montessori nasceu em 31 de agosto de 1870, em Chiaravalle, na Itália. Em uma época na qual poucas mulheres conseguiam ingressar em determinadas carreiras, estudou Medicina e, em 1896, tornou-se uma das primeiras médicas italianas. Essa formação científica influenciaria profundamente a maneira de Maria Montessori pensar a educação.
Maria Montessori nasceu em 31 de agosto, véspera do aniversário da Escola Upaon-Açu, celebrado em 1º de setembro Ascom/Escola Upaon-Açu A história dessa concepção de educação começa com uma mulher que rompeu barreiras muito antes de transformar a pedagogia. Maria Montessori nasceu em 31 de agosto de 1870, em Chiaravalle, na Itália. Em uma época na qual poucas mulheres conseguiam ingressar em determinadas carreiras, estudou Medicina e, em 1896, tornou-se uma das primeiras médicas italianas.
Essa formação científica influenciaria profundamente a maneira de Maria Montessori pensar a educação. Montessori observava as crianças, registrava comportamentos, modificava ambientes e materiais e analisava como elas reagiam. Em 1907, abriu em Roma a primeira Casa dei Bambini (Casa das Crianças), experiência que se tornaria o ponto de partida para a difusão internacional de seu método.
Ao longo da vida, a obra de Montessori extrapolou o ensino de conteúdos. Ela passou a defender uma educação relacionada à liberdade responsável, à convivência e à construção da paz. E é justamente nessa interseção entre educação e paz que a história de Maria Montessori encontra uma das tradições mais antigas do Upaon-Açu.
