Fãs de Beyoncé, Lady Gaga e Stray Kids marcaram presença em atos pró-Lula Reprodução Horas após o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais, no dia 4 de outubro, um fã-clube de Billie Eilish fez um post se disponibilizando para ajudar a campanha de Lula (PT). O que parecia um gesto isolado virou um dos movimentos mais inusitados da reta final da eleição.
Post do perfil Info Billie Brasil após resultado do primeiro turno das eleições Reprodução/X O post no X acabou se tornando a semente de uma mobilização entre fãs de cultura pop. Nas semanas seguintes, os fandoms passaram a priorizar a política em vez de notícias sobre seus ídolos. Criaram conteúdos, foram às ruas e ajudaram a impulsionar uma virada inédita nas eleições presidenciais.
Entenda como os fã-clubes participaram da reeleição de Lula em 2026: 'Oi, Lula' A relação entre fãs e política tem precedentes recentes no Brasil. Em 2022, por exemplo, o movimento “Fandoms Pelo Voto” mobilizou jovens entre 16 e 18 anos para tirar o título de eleitor e participar da votação. Outra movimentação similar foi o "Fandoms Pela Amazônia", de 2024, com mutirões pela defesa da preservação ambiental.
Neste ano, pautas relacionadas a shows pop vinham aproximando fã-clubes de políticos como Guilherme Cortez (PSOL) e Erika Hilton (PSOL). Em agosto, isso culminou em um encontro com Lula, em Brasília, para o “Decreto dos Fãs”, contra o cambismo e a favor da distribuição gratuita de água nos eventos.
Roblox, fandoms e bloquinho: como a geração Z entrou na disputa entre Flávio e Lula Fã-clubes de artistas pop se mobilizam para reforçar presença de Lula nas redes sociais Mas mesmo os fã-clubes que já se posicionavam vinham fazendo isso em uma escala menor. O gatilho para o grande movimento veio com o resultado do primeiro turno, em que Lula apareceu atrás de Flávio Bolsonaro (PL).
Foi quando os jovens usaram 600 páginas de fã-clubes, totalizando cerca de 20 milhões de seguidores somados, para se unir pela campanha do petista. "A gente percebia que o Lula tinha uma falta muito forte na campanha dele no digital, de atingir jovens, tanto na edição de vídeo, como em espalhar informações", explica Victor Gabriel, do Info Billie Brasil.
“A minha ideia na hora foi só escrever aquilo e falar: ‘Oi, Lula, as minhas redes estão abertas para compartilhar qualquer informação que vá te ajudar, que vá atingir mais pessoas’”. Foi uma ideia "espontânea" em um momento de preocupação, mas deu certo. Páginas de fãs de BTS, Olivia Rodrigo, Beyoncé, Taylor Swift, The Weeknd e outros artistas replicaram o post, oferecendo suas redes à campanha.
“O tweet foi o estopim, mas, sem a força coletiva, a mobilização provavelmente teria morrido ali”, afirma Rafaella Silveira, do portal Beyoncé Brasil. Fandoms se mobilizaram no X para participar da campanha de Lula após o primeiro turno Reprodução/X O esforço logo foi reconhecido pela campanha do candidato. Após a série de tweets dos portais, integrantes da equipe de Lula entraram em contato, e a equipe da primeira-dama Janja chegou a criar um grupo para reunir representantes de fã-clubes.
Mas foram os próprios fãs que organizaram os conteúdos de forma orgânica, segundo os entrevistados. “A gente começou a compartilhar informações entre a gente. Às vezes recebia um vídeo do Lula agradecendo o carinho, mas nada de ‘olha, faz isso, faz aquilo’.
Era tudo muito orgânico: a gente repostava com a nossa linguagem, com a linguagem que ia atingir os fãs", conta Victor. Das redes às ruas Essa mobilização contribuiu para um dos primeiros e maiores atos de apoio a Lula, na Avenida Paulista, em 11 de outubro. Organizado por associações de estudantes, o ato contou com a divulgação dos fandoms e provou que a campanha do petista ainda tinha fôlego.
“Sabíamos que era preciso fazer barulho nas ruas, além do digital (que foi fundamental)”, conta Eduarda Altmann, do Taylor Swift Brasil. O grupo procurou a equipe de Erika Hilton e a Juventude do PT, e foi por meio dos jovens petistas que a equipe de Lula entrou em cena. A expectativa inicial para o ato era de cerca de 5 mil pessoas.
Em poucos dias, Erika Hilton e o vice-presidente Geraldo Alckmin confirmaram presença e adms de fã-clubes foram convidados para uma entrevista na DiaTV. “Quando o próprio presidente Lula confirmou presença, a ficha caiu: ‘Caramba, isso está mesmo acontecendo’”, lembra Eduarda. O ato ocupou 18 quarteirões da avenida.
Augusto Lippa, do Beyoncé Brasil, e representantes do Anitta Crave, Taylor Swift Brasil, BTS Brasil ON e RDT Lady Gaga com o vice-presidente Geraldo Alckmin, durante um bate-papo na live da DiaTV, no ato do dia 11, em São Paulo Reprodução/Acervo pessoal Ao subir no trio naquele 11 de outubro, Lula até mudou seu cumprimento tradicional. "Não sei se começo a minha fala dizendo 'companheiros', 'companheiras', ou começo dizendo: 'Fandoms do Brasil, obrigado pela iniciativa de vocês'".
Era oficial: os fã-clubes tinham entrado para a história da campanha. "Comecei a ter esperança quando [a equipe de Lula] ouviu a juventude, que passa boa parte do dia nessas redes, e levaram isso a sério de verdade. Há anos falamos sobre o impacto dos fã-clubes e dos perfis de cultura pop na política.
Que bom que, desta vez, conseguimos provar", diz Eduarda. Fandoms pelo Brasil Nesse período, o coletivo Fandoms Pelo Brasil (que existia desde 2024) se estruturou de vez em prol da campanha de Lula. Nos bastidores, os participantes dividiam tarefas conforme a necessidade.
“Tínhamos pessoas desenvolvendo artes, produzindo textos, fazendo contatos, articulando parcerias e acompanhando o que acontecia nas redes. Por sorte, o Fandoms pelo Brasil conta com adms de fã-clubes com formação em jornalismo e publicidade”, diz Rafaella. O movimento investiu em várias frentes, das redes às ruas.
Enquanto o marketing político costuma ser engessado, a aposta dos fãs foi em uma linguagem digital que outros jovens entenderiam. Alguns conteúdos usavam músicas de seus ídolos para abordar pautas da campanha petista, como o fim da escala 6x1. Outros tentaram tornar o assunto menos sério, com vídeos associando Lula às suas divas pop preferidas.
Rolaram até collabs entre fandoms “historicamente rivais”, como fãs de Anitta e Ludmilla, BTS e Blackpink, e por aí vai. Initial plugin text A maior preocupação, segundo Rafaella, era “furar a bolha”. “Precisávamos transformar a mobilização digital em votos nas urnas", explica.
Por isso, eles estimulavam seguidores a conversar com familiares e conquistar "pelo menos mais um voto" para Lula. "Se tivéssemos feito o ato e cada um apenas voltasse para casa, não teríamos vencido. A vitória passou pelas ruas, mas aconteceu principalmente no digital.
Foi ali que todo mundo percebeu que Instagram, TikTok, X e WhatsApp podem, sim, influenciar muito uma eleição", diz Eduarda. 'Ser fã é ser politizado' Alguns fã-clubes tiveram o respaldo dos seus ídolos ou pessoas próximas a eles. Victor conta que seu fã-clube enviou conteúdos para o irmão e a mãe de Billie Eilish, e eles fizeram posts pró-Lula em seguida.
“Quando a mãe e o irmão dela fazem o mesmo posicionamento que você, você entende que está certo em dar voz". Mas nem todo fã concordou com a ação dos portais, principalmente quando não é possível saber a posição dos ídolos. Fãs de Bad Bunny e Ariana Grande produziram adesivos pró-Lula Reprodução Para as representantes dos fandoms de Beyoncé e Taylor Swift ouvidas pelo g1, o posicionamento pró-Lula estava em sintonia com os valores das próprias artistas.
Mesmo assim, muitos perfis receberam críticas e perderam alguns seguidores que votaram em Flávio. Eduarda reforça que "todo posicionamento envolve risco" e eles estavam "dispostos a corrê-lo". "Na nossa visão, quem nos criticou ou deixou de nos seguir não entende o que a Taylor defende, então Bella Ciao para eles".
Já fã-clubes de artistas brasileiras, como Anitta, foram além, e não só se manifestaram a favor do petista, como cobraram a cantora para que fizesse o mesmo. Também aconteceram casos de fã-clubes que se posicionaram a favor de Flávio Bolsonaro, como o NJZ Brasil (do grupo de k-pop NewJeans). Ou que preferiram ficar neutros, como é o caso do Shakira Brasil.
A justificativa da fanpage foi uma orientação anterior da equipe da cantora colombiana: ela não quer ter sua imagem atrelada a "conteúdos de natureza política". Mas o movimento de fãs que mais gerou engajamento, nas redes e nas ruas, estava a favor do candidato petista. Feito a muitas mãos, os fã-clubes seguiram firmes até o final: no último ato da campanha de Lula, no dia anterior ao segundo turno, os fãs levaram cartazes temáticos e até "cabeções" de seus ídolos.
Fãs levaram 'cabeção' de Billie Eilish, Anitta, Ludmilla, Rihanna, Beyoncé e mais para ato na Paulista Reprodução/X Não é possível mensurar exatamente o impacto das ações dos fandoms e da juventude na vitória de Lula, mas há pistas. Para o cientista político Jairo Nicolau, não há uma única explicação para o resultado das eleições, mas "a onda" veio, sim, a partir dos jovens e dessa articulação digital. "Qualquer grupo político podia ter iniciado esse movimento, mas quem começou foram os jovens (...).
E, como boa parte deles não é vinculada a partidos, a organizações tradicionais, isso deu uma maleabilidade muito grande", explica. "A juventude trouxe um alento, uma comunicação para um público que parece que a campanha não estava atingindo no primeiro turno. Claro que tem organizações tradicionais, coletivos, partidos políticos, mas boa parte disso se fez de maneira espontânea, jovens convocando uns aos outros.
Então, realmente, foi um movimento que nós não víamos há muito tempo no Brasil". Em seu discurso de vitória, Lula agradeceu a "generosidade da juventude brasileira" e disse que até ele tinha aprendido com a mobilização do povo brasileiro. Para os fãs ouvidos pelo g1, a experiência mostrou que é possível se organizar em prol de uma nova diva pop: a política.
"Ser fã também é ser politizado", diz Rafaella. "Os fandoms são comunidades extremamente organizadas, criativas e engajadas. Conseguem mobilizar milhares de pessoas por um lançamento, um show ou uma premiação.
Por que não utilizar essa mesma capacidade de organização para defender causas sociais?”. "A juventude, hoje, tem que se disponibilizar a ser mais política, né? Não ser ‘aesthetic’ apenas.
Porque política também é cool", completa Victor.
