Estudo genômico revela duas novas espécies de bugios na Amazônia Jefferson Souza A vasta biodiversidade da Floresta Amazônica acaba de ganhar dois novos representantes oficiais entre os primatas. Um estudo genômico de grande escala focado no gênero Alouatta, popularmente conhecido como bugio ou guariba, revelou que linhagens até então desconhecidas habitam o norte e o sul da região amazônica.

📱 Acompanhe o Terra da Gente também no Instagram Publicada na revista científica Communications Biology, a pesquisa combinou sequenciamento completo do DNA com a análise detalhada da pelagem, do crânio e da distribuição geográfica dos animais. O resultado foi a descrição formal de duas novas espécies: o bugio-vermelho-do-Pantepui (Alouatta iroi) e o bugio-vermelho-do-Mato-Grosso (Alouatta matogrossensis).

Além de reorganizar a árvore genealógica dos bugios, o estudo revelou um detalhe curioso: a maior parte das espécies amazónicas surgiu há pouquíssimo tempo na escala evolutiva, ao longo do último milhão de anos. VEJA TAMBÉM: Rã levanta as patas enquanto 'canta' em cachoeira no litoral de SP; entenda o comportamento curioso Cactos em meio à Mata Atlântica: como essas plantas foram parar em Alcatrazes?

Desmatamento na Amazônia coloca em risco US$ 22 bi, aponta análise Conheça as novas espécies Os bugios são conhecidos por sua vocalização potente, que pode ser ouvida a quilômetros de distância, e por sua dieta baseada em folhas e frutos. As duas novas espécies descritas ocupam áreas distintas da Amazônia e apresentam peculiaridades morfológicas e geográficas únicas: Bugio-vermelho-do-Pantepui (Alouatta iroi): Habita a porção norte da Amazônia brasileira.

Sua área de ocorrência é delimitada pelos rios Negro, Branco e Cauaburi. O exemplar usado como referência (holótipo) para identificar a espécie foi coletado nas proximidades da Serra do Aracá, no estado do Amazonas. Ele se diferencia de parentes próximos pela cor do dorso, que varia entre o amarelo-brilhante e o dourado, além de detalhes específicos na estrutura óssea da garganta (osso hioide).

Bugio-vermelho-do-Pantepui (Alouatta iroi) John Trent Bugio-vermelho-do-Mato-Grosso (Alouatta matogrossensis): Localizado no sul da Amazônia, esse primata vive na faixa entre os rios Madeira e Teles Pires, estendendo-se até o limite em que a floresta tropical encontra as áreas de savana e Cerrado. Apresenta pelagem em tom castanho-avermelhado vibrante.

Bugio-vermelho-do-Mato-Grosso (Alouatta matogrossensis) Jefferson Souza Rios e transições de vegetação como "fronteiras naturais" Para entender como essas novas espécies surgiram, a pesquisa analisou como o relevo e a vegetação da Amazônia influenciam o fluxo de genes entre as populações. Embora os bugios sejam animais adaptáveis, grandes rios como o Amazonas, o Branco e o Madeira funcionam como barreiras geográficas quase intransponíveis.

Ao longo de centenas de milhares de anos, grupos de bugios ficaram isolados em diferentes margens de rios, como os rios Negro e Xingu, que desempenharam papéis históricos na separação de linhagens. O mesmo aconteceu em zonas de transição entre florestas e formações abertas, conhecidas como ecótonos. Com esse isolamento geográfico prolongado, os animais deixaram de se cruzar e acumularam diferenças genéticas suficientes na história evolutiva do grupo para se tornarem espécies distintas.

Veja o que está em alta no g1: Agora no g1 Registro em vida livre em Mato Grosso Além da descrição científica nos laboratórios, a nova espécie já pode ser observada em seu habitat natural. No município de Alta Floresta, no norte de Mato Grosso, exemplares do bugio-vermelho-do-Mato-Grosso vivem livremente nas áreas de mata preservada da Fazenda Anacã.

A propriedade, que já desenvolve iniciativas de monitoramento da fauna local, como o projeto Monitora Anacã – Vida Silvestre em Foco, teve a presença da nova espécie confirmada em registros fotográficos e acompanhada de perto no local pela equipe de reportagem do Terra da Gente em agosto.

No município de Alta Floresta, no norte de Mato Grosso, exemplares do bugio-vermelho-do-Mato-Grosso vivem livremente nas áreas de mata preservada da Fazenda Anacã Jefferson Souza "A primeira vez que vimos o bugio foi há quase 13 anos, quando minha esposa, a Vick, entrou na mata enquanto fazíamos uma cerca de contenção das APPs e me chamou dizendo que havia avistado uma 'bola vermelha' que se mexia no alto da árvore.

Fui com a caêmra, fiz uma foto e, até então, imaginávamos que fosse outra espécie", relembra o proprietário da fazenda Fernão Prado. Segundo o empresário e representante regional do Turismo de Observação de Vida Silvestre (TOVS), a descoberta de que se trata de uma espécie recém-descrita traz ainda mais significado para o trabalho de conservação na propriedade. "Um dos motivos de termos criado a RPPN foi justamente proteger esses bichos, que exigem uma qualidade de mata melhor.

Agora nos sentimos com uma responsabilidade ainda maior. Já estamos trabalhando em ações de plantio de árvores com foco na alimentação desse animal, para garantir que ele possa perdurar por muito mais tempo vivendo aqui nos nossos fragmentos". Alerta vermelho para a conservação Se a descoberta do bugio-vermelho-do-Pantepui reforça o quanto a Amazônia ainda guarda segredos, a situação do bugio-vermelho-do-Mato-Grosso traz um alerta urgente para a ciência.

Os autores do estudo apontam que A. matogrossensis já nasce para a ciência sob forte risco. A região onde a espécie vive sofre com altas taxas de desmatamento, expansão agropecuária e fragmentação florestal.

A. matogrossensis já nasce para a ciência sob forte risco em razão das altas taxas de desmatamento, expansão agropecuária e fragmentação florestal Jefferson Souza Por isso, os cientistas recomendam que seu estado de conservação seja avaliado com urgência pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), com potencial para ser classificada diretamente como Criticamente Em Perigo (CR). A descoberta deixa evidente que espécies inteiras podem ser extintas antes mesmo de serem conhecidas e catalogadas.

A preservação dos corredores florestais na Amazônia sul e o estudo contínuo da fauna nativa mostram-se fundamentais para evitar que novas páginas da biodiversidade brasileira sejam apagadas. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente