Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) durante atos de campanha na Avenida Paulista, em São Paulo. Ricardo Stuckert e Vittor Sales As campanhas de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) entraram no segundo turno como dois times que foram para o vestiário, avaliaram os erros do primeiro tempo e voltaram a campo com estratégias diferentes. Mas foi a campanha do presidente Lula que precisou recalcular mais profundamente a rota, depois do susto com o desempenho de Flávio no primeiro turno.
A reação do presidente se concentrou em duas frentes: ruas e redes. Nas ruas, apoiadores tentaram reeditar uma espécie de frente ampla, nos moldes de 2022. No ambiente digital, a campanha intensificou a mobilização, com protagonismo do deputado André Janones.
A avaliação foi de que não bastava disputar o eleitorado pelos meios tradicionais. Era preciso ganhar espaço nas redes sociais, onde parte importante da batalha eleitoral acontece. Do lado de Flávio Bolsonaro, a estratégia foi praticamente oposta: fazer menos para errar menos.
A impressão transmitida por integrantes da campanha é a de um time que se vê em vantagem, toca a bola de lado e olha para o relógio, esperando o juiz apitar. Agora no g1 A ordem foi evitar riscos e conter a antecipação de discussões sobre um eventual governo. Aliados já falavam em ministérios e ocupação de cargos, movimento que a coordenação procurou frear.
A avaliação é que, quanto maior a exposição na reta final, maior o risco de cometer erros capazes de comprometer o desempenho nas urnas. Há ainda um elemento importante nessa disputa: o peso da máquina pública. Assim como Jair Bolsonaro (PL) contou com a estrutura e a visibilidade da Presidência quando tentou a reeleição, Lula também disputa a eleição com as vantagens políticas de quem ocupa o cargo.
Mas, passada a eleição, o desafio será outro: governar. Independentemente de quem vencer, o próximo presidente encontrará um cenário econômico que exigirá ajustes e reorganização das contas públicas. As duas campanhas fizeram promessas que terão de ser confrontadas com a realidade fiscal.
E a conta, mesmo para quem é de humanas, é fácil de perceber: não fecha. Isso significa que o próximo governo terá de estabelecer prioridades e escolher onde gastar seu capital político. No caso de Flávio Bolsonaro, há uma agenda que ele próprio já colocou entre suas prioridades: a situação do pai, Jair Bolsonaro.
Uma eventual tentativa de tirá-lo da prisão, a discussão sobre anistia aos condenados pela tentativa de golpe de Estado e as iniciativas de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) são temas que exigiriam intensa articulação política. E um governo não consegue travar todas as batalhas ao mesmo tempo. Cada negociação exige tempo, construção de maioria e gasto de energia política.
A pergunta é quanto espaço sobraria para enfrentar os problemas econômicos e administrativos do país. No caso de Lula, o desafio seria governar diante de um Congresso Nacional de perfil majoritariamente conservador, com uma correlação de forças desfavorável ao presidente. A negociação com parlamentares e a formação de maiorias seriam obstáculos permanentes para aprovar sua agenda.
Há ainda um terceiro ponto, menos visível durante a campanha, mas fundamental para compreender o que está em disputa: o controle e a influência sobre estruturas estratégicas do Estado. O resultado da eleição terá consequências para o comando de órgãos de investigação, como a Polícia Federal, para as indicações a cargos do Ministério Público que dependem da Presidência e, ao longo do mandato, para a ocupação de postos estratégicos em bancos públicos, diretorias e outras instituições federais.
São escolhas que vão muito além da distribuição de cargos. Elas influenciam o funcionamento do Estado, a condução de políticas públicas e a relação entre o governo, os órgãos de controle e as instituições de investigação. Por isso, a eleição não decide apenas quem ocupará a Presidência da República.
Decide também quem terá o poder de fazer indicações e influenciar os rumos de instituições estratégicas nos próximos anos. Se as campanhas passaram o segundo turno tentando errar menos, o vencedor terá de começar o governo fazendo escolhas difíceis. E, sobretudo, decidindo quais batalhas poderá comprar.
