‘Criador de histórias’: aposentado do interior de SP sonha escrever novelas Giuseppe Berdinazi (Tarcísio Meira) e Antônio Mezenga (Antonio Fagundes) discutem por conta de uma cerca que divide as terras deles. Os rivais provocam um ao outro, se ofendem e chegam às vias de fato até serem contidos. Depois, fazem ameaças e vão embora, sinalizando que aquela disputa estava longe de acabar.
Quando perguntado sobre uma cena de novela inesquecível, o aposentado Paulo Guimarães Alves, de 63 anos, nascido e criado em Regente Feijó (SP), lembra rapidamente do embate entre os patriarcas das famílias inimigas de “O Rei do Gado”, sucesso do autor Benedito Ruy Barbosa exibido em 1996. “Pareciam dois touros bravos”, comenta. 📲 Participe do canal do g1 Presidente Prudente e Região no WhatsApp Mas a paixão de Alves por telenovelas começou muito antes de “O Rei do Gado”.
Ele lembra de acompanhar, desde a infância, os folhetins brasileiros ao lado dos pais e de se encantar pelas histórias, especialmente as rurais. “Eu me identificava com cada novela rural que ia ao ar e pensava que algo estava me levando naquela direção”, diz o aposentado.
Aposentado de Regente Feijó (SP) registra as sinopses e capítulos que escreve e já recebeu cartas de autores e diretores de TV Arquivo Pessoal/Divulgação LEIA TAMBÉM Cadela é adotada por cartório eleitoral, ganha crachá e vira 'servidora pet' no interior de SP Cão surge em camarim de Zezé Di Camargo em Presidente Prudente e é adotado: 'Impossível não me apaixonar' VÍDEO: força-tarefa ajuda onça-pintada a deixar rodovia e voltar para área de mata no interior de SP Esse “algo” era um sonho.
O regentense passou a querer ser mais do que um espectador e, desse fascínio, nasceu o desejo de se tornar autor de novelas. “Sou nascido e criado no mundo rural, no sítio, e algumas novelas me despertaram esse desejo, especialmente as escritas pelo Benedito Ruy Barbosa. Aos 14 anos, comecei a escrever poemas e até letras de músicas, mas fui desenvolvendo uma paixão pela dramaturgia ao longo do tempo”, conta Alves, que cita “Cabocla” (1979) e “Paraíso” (1982) como alguns dos folhetins preferidos.
O caçula de cinco irmãos, no entanto, não sabia por onde começar. Trabalhando no sítio da família e sem qualquer contato com o mercado audiovisual, tomou a decisão de colocar as ideias no papel. “Escrevia sem a mínima técnica.
Então, comecei a mandar cartas para autores e diretores de TV, pois queria ter noção de como escrever para oferecer minhas ideias para avaliação”, conta. Uma das cartas foi respondida pelo diretor Jacques Lagoa, que enviou a sinopse e um capítulo de uma novela mexicana para que Alves tivesse ideia de como os autores escrevem os folhetins. “Pedi ajuda para desenvolver a minha técnica de escrita e ele foi muito gentil me enviando esse material.
A partir daí, eu comecei a escrever cena por cena. Na sinopse, eu conto a história em poucas páginas, escrevo o perfil de cada personagem e as histórias paralelas. Depois, desenvolvo um capítulo para quem for analisar ter uma noção mais prática da história”, explica.
O aposentado também recebeu uma resposta do autor Alcides Nogueira, responsável por novelas como “Força de um Desejo” (1999) e “Tempo de Amar” (2017). “Enviei meu livro de poesia e ele respondeu educadamente, agradeceu e me falou para continuar escrevendo, pois um dia eu conseguiria mostrar para alguém. E eu estou na luta até hoje”.
Inspirado pelos folhetins rurais, Paulo Guimarães Alves, de 63 anos, tem o sonho de escrever novelas e participar de uma equipe de roteiristas Arquivo Pessoal/Divulgação 800 páginas à mão Antes dos recursos tecnológicos e dos materiais a que teve acesso, Alves chegou a escrever 800 páginas de uma história à mão. Depois, já com um computador, ele usou esse trabalho como inspiração para criar uma sinopse. “Já escrevi duas sinopses de novelas e tenho duas minisséries escritas por completo, com sete episódios cada”.
Para tentar apresentar as histórias que cria, Alves já foi à portaria dos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro, com uma faixa, para pedir uma oportunidade. No período em que esteve por lá, se inscreveu em uma agência e conseguiu ser figurante em algumas produções, como nas novelas “A Favorita” e “Negócio da China”, ambas de 2008, e na minissérie “Maysa - Quando Fala o Coração” (2009).
Todas as ideias, enfatiza o aposentado, estão devidamente registradas na Fundação Biblioteca Nacional, órgão responsável pelo registro e pela averbação de direitos autorais de obras intelectuais. Capítulo 100: a reviravolta Assim como nas novelas, a vida de Alves chegou ao capítulo 100, aquele em que uma reviravolta muda os rumos da história. Depois de sair da zona rural, ele trabalhou como motorista e acabou sofrendo um grave acidente de trânsito.
“Em 2009, sofri um acidente em que quebrei a perna, o rosto e bati a cabeça. Foram cinco anos de recuperação e, nesse período, tive depressão, ainda tomo remédios. Hoje, tenho um problema na coluna como sequela do acidente”.
De acordo com o aposentado, durante essa fase, ele não teve condições de escrever, mesmo com as ideias insistindo em surgir. Paulo Guimarães Alves ao lado dos filhos, Tawana, Tainara e Luiz Paulo, e da esposa Leila: família apoia e incentiva aposentado em busca de sonho Arquivo Pessoal/Divulgação ‘Criador de histórias’ Alves tem dois livros de poesia publicados, “Paisagens pra Alma” e “O Único Verde”, mas o sonho de escrever uma novela segue vivo e adaptado à nova realidade.
Por conta das dores na coluna, o aposentado, que se define como um “criador de histórias”, admite que não conseguiria mais passar horas sentado escrevendo, mas acredita poder colaborar com uma equipe de roteiristas. “Já tive vontade de fazer cursos de roteiro, mas ter uma oportunidade é muito difícil. Ainda não temos muito acesso aqui e naquele tempo era mais difícil.
Eu preciso me aperfeiçoar, porque não basta criar um material e ele ficar guardado comigo. Não tenho condições de escrever uma novela completa, minha coluna não aguenta. Eu quero mesmo é fazer parte de uma equipe, ser um colaborador.
Meu corpo está cansado, mas minha mente está 100%”, diz. E a família incentiva e admira o sonho do aposentado, de acordo com a filha dele, Tawana Guimarães. “Acho muito bonito ver o quanto ele acredita no que escreve e nunca deixou esse sonho morrer.
É muito gostoso acompanhar a imaginação dele e ver como meu pai consegue transformar ideias e situações em histórias. A família sempre incentiva, ajuda como pode e torce muito para que alguém enxergue o talento que vemos nele”, finaliza. Aposentado que sonha escrever novelas considera cena de briga de "O Rei do Gado" inesquecível TV Globo/Reprodução Initial plugin text Veja mais notícias em g1 Presidente Prudente e Região VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM
