'Dobradinha' de Canella e Rueda: investigação aponta existência de currais eleitorais em Belford Roxo Pernambucano e eleito deputado federal em sua estreia nas urnas, o presidente nacional do União Brasil, Antonio Rueda, recebeu 60,2% de seus 155.836 votos em Belford Roxo, na Baixada Fluminense. Na cidade, fez campanha em conjunto com o ex-prefeito Márcio Canella, preso na quinta-feira (15).
Segundo a Polícia Federal, Canella contava com um braço armado e com coerção para sustentar seu domínio eleitoral no município. No relatório que pediu a prisão do ex-prefeito, os investigadores apontam que um miliciano condenado garantiria a ele o controle de currais eleitorais. Rueda não é citado nesse relatório da PF.
A ligação de sua campanha com suspeitos de integrar milícias, no entanto, foi questionada pela Procuradoria Regional Eleitoral, que se manifestou contra sua candidatura. No parecer, a Procuradoria apontou uma “conexão estrutural e territorial” entre Rueda, Canella e operadores paramilitares em Belford Roxo. O Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) autorizou as duas candidaturas.
O ‘federal do Canella’ Rueda foi apresentado na campanha como "o federal do Canella" Reprodução Nascido no Recife, a cerca de 2,3 mil quilômetros de Belford Roxo, Rueda concentrou no município a maior parte de sua votação para a Câmara dos Deputados. Ele e Canella fizeram uma “dobradinha”: promoveram suas candidaturas em conjunto, um para deputado federal e o outro para deputado estadual. Na propaganda eleitoral, Rueda era apresentado como o “federal do Canella”.
Os dois também apareceram em santinhos virtuais ao lado de Fabinho Varandão, nomeado secretário municipal de Esportes durante a gestão de Canella na prefeitura. Segundo a Procuradoria Regional Eleitoral, Varandão é acusado de integrar uma milícia armada, praticar extorsões violentas e ameaçar comerciantes de morte. O órgão também atribui a ele o controle armado e o monopólio da distribuição de sinal de internet em bairros de Belford Roxo.
No parecer contrário ao registro de Rueda, a Procuradoria afirmou que Varandão teria sido mantido no núcleo de poder político local e integraria a base que sustentava, promovia e operacionalizava a candidatura do presidente do União Brasil. Essa atuação, segundo o documento, incluiria a promoção de comícios, reuniões e publicações de propaganda em conjunto com Rueda e Canella na Baixada Fluminense. Apesar da manifestação contrária da Procuradoria, o TRE-RJ permitiu que Rueda disputasse a eleição.
Canella recebeu mais da metade dos votos da cidade Um levantamento do RJ2 mostra que Canella, eleito o segundo deputado estadual mais votado do Rio, recebeu 133.956 votos em Belford Roxo — 54% dos votos para o cargo no município. O segundo colocado na cidade, Igo Menezes, teve 6.197 votos, ou 2,5% do total. A votação dele equivale a 4,6% da obtida pelo ex-prefeito.
Nas quatro zonas eleitorais de Belford Roxo, Canella recebeu entre 46% e 61% dos votos, em uma disputa com mais de mil candidatos a deputado estadual. Fora de Belford Roxo, seu melhor resultado proporcional foi em uma zona eleitoral de Duque de Caxias, também na Baixada Fluminense, onde recebeu 12% dos votos. O relatório da PF que pediu sua prisão é de 3 de setembro, cerca de um mês antes da eleição.
No documento, os investigadores descrevem a suspeita de uso de milícia para garantir o controle eleitoral. TRE discutiu suspeitas antes da votação As suspeitas de ligação de Canella com milícia e de seus efeitos nas urnas já haviam sido levadas ao TRE-RJ por adversários políticos que pediam o indeferimento de sua candidatura. Os questionamentos receberam o apoio do Ministério Público Eleitoral.
O desembargador Guilherme Calmon votou para impedir a candidatura, mas ficou vencido. Em seu voto, Calmon citou a nomeação da mulher do ex-policial Juracy Prudêncio, o Jura, para o gabinete de Canella quando ele era deputado na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). Jura é apontado como chefe do grupo de extermínio e milícia conhecido como “Bonde do Jura”.
A nomeação também foi mencionada pela PF. Outro ponto abordado pelo desembargador foi a operação municipal Barricada Zero, apresentada como um programa para retirar obstáculos instalados nas ruas de Belford Roxo. Segundo o voto de Calmon, a entrada do então prefeito em áreas dominadas pelo tráfico para gravar vídeos de campanha e realizar obras dependia da autorização expressa dos traficantes Soró e Doca, este apontado como chefe do Comando Vermelho.
O plenário do TRE-RJ, no entanto, autorizou a candidatura de Canella. A validade dos votos do ex-prefeito ainda será analisada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em julgamento sem data marcada. O que dizem os citados O RJ2 pediu um posicionamento à defesa de Márcio Canella, mas não recebeu resposta.
Na quinta-feira (15), os advogados afirmaram que ele confia na Justiça e tem certeza de que tudo será esclarecido. Antonio Rueda também não respondeu ao contato. A TV Globo não conseguiu contato com Fabinho Varandão.
