‘Paisagem do medo’: Macacos e elefantes mudam forma de se locomover quando percebem perigo Andrea Presotto Quando precisam atravessar áreas com maior risco de caça ou predação, alguns animais podem preferir caminhos que já conhecem e evitar novas rotas. É o que indica um estudo publicado na revista científica Scientific Reports, que analisou a navegação de elefantes-africanos (Loxodonta sp.) no Zimbábue e de macacos-prego-do-peito-amarelo (Sapajus xanthosternos) na Bahia.
📱 Acompanhe o Terra da Gente também no Instagram Os pesquisadores perceberam que as duas espécies aumentaram o uso de rotas habituais em locais associados à presença humana e a situações de risco. Segundo o estudo, seguir por caminhos já conhecidos exige menos esforço cognitivo do que elaborar novas estratégias de navegação. Isso pode permitir que os animais direcionem mais atenção para a identificação de possíveis ameaças.
A estratégia, portanto, pode ajudar a conciliar a navegação com a necessidade de permanecer atento aos sinais de perigo. A pesquisa foi liderada pela brasileira Andrea Presotto, da East Carolina University, nos Estados Unidos, e contou com pesquisadores de instituições do Brasil, Zimbábue, Reino Unido e Estados Unidos. O trabalho analisou dez elefantes machos adultos na região de Victoria Falls, no Zimbábue, e um grupo de macacos-prego-do-peito-amarelo na Reserva Biológica de Una, no sul da Bahia.
Veja mais notícias do Terra da Gente, no g1: AO MUNDO: Brasil leva à Europa experiências para devolver animais a locais onde desapareceram COMPORTAMENTO: Caso de homem atacado por morcego-vampiro é descrito pela ciência CARA A CARA COM O LOBO: Morador se surpreende com aparição de lobo-guará durante treino Veja o que está em alta hoje no g1: Agora no g1 Caminhos conhecidos A repetição das rotas não acontece por acaso.
Segundo Andrea, tanto os elefantes quanto os macacos-prego têm capacidade de memorizar caminhos e podem aprender com indivíduos mais experientes do grupo. “Os dois podem lembrar dos caminhos. É uma coisa que a gente faz também: se uma rua está fechada, a gente sabe que pode pegar outra.
Eles também têm essa capacidade de lembrar e mudar a rota”, explica a pesquisadora. De acordo com Andrea, esse conhecimento também pode ser transmitido entre os animais. Indivíduos mais jovens têm a capacidade de aprender os trajetos utilizados pelos mais experientes, fazendo com que determinadas rotas sejam mantidas ao longo do tempo.
Medo influencia rotas de macacos e elefantes e pode até afetar florestas Andrea Presotto 'Paisagem do medo' Para entender por que determinado local é evitado ou atravessado de maneira diferente, os pesquisadores utilizam o conceito denominado “paisagem do medo”. Ele representa a percepção que um animal tem sobre os riscos existentes em diferentes partes do ambiente. Essa percepção não depende necessariamente de uma experiência direta vivenciada pelo animal.
Ele pode observar outro indivíduo sendo perseguido ou simplesmente associar determinadas características de um lugar a uma ameaça. "É um medo percebido que pode ser porque esses indivíduos sofreram algum risco de serem predados, ou caçados, ou porque eles observaram outros indivíduos sendo caçados, ou até mesmo por uma questão da percepção de que alguns lugares são mais perigosos que outros", explica a cientista.
Ela compara o comportamento ao de uma pessoa que, por exemplo, prefere andar por uma rua bem iluminada à noite porque se sente mais segura. Mesmo que nunca tenha passado por uma situação de perigo em uma rua escura, ela pode escolher evitá-la simplesmente por saber que aquele lugar pode ser mais arriscado.
O silêncio dos macacos Segurança antes da comida: estudo revela como animais escolhem caminhos diante do risco Pricila Suscke No caso dos macacos-prego-do-peito-amarelo, o estudo encontrou uma associação entre a repetição das rotas e locais relacionados a sinais de caça, presença de predadores terrestres e momentos em que o grupo se deslocava em silêncio. O silêncio foi registrado quando os macacos se movimentavam mais devagar do que o habitual ou se alimentavam sem fazer barulho.
A pesquisa também levou em conta outros sinais de perigo, como vocalizações de alarme, presença de predadores e indícios de caça por humanos. Para Patrícia Izar, professora do Instituto de Psicologia da USP e também autora do estudo, o silêncio pode ser uma estratégia para atravessar áreas consideradas mais perigosas.
"Acreditamos que estar em silêncio em associação com a repetição de caminhos que parecem mais seguros naqueles determinados locais é a combinação ideal para não ser predado", afirmam em conjunto Patrícia e Andrea. Segundo elas, esse comportamento pode representar uma escolha pela segurança em vez da busca por novos caminhos ou até mesmo por locais potencialmente mais ricos em alimento. Essa relação já havia sido observada em trabalhos anteriores com essa mesma população.
Macacos ficam em silêncio e repetem caminhos em áreas de risco de caça e predação Pricila Suscke Segurança ou alimento? A estratégia de escolher caminhos conhecidos pode ter um custo. Ao restringirem os deslocamentos a determinadas rotas, os animais podem deixar de explorar outras áreas e, consequentemente, ter menos flexibilidade para encontrar recursos.
No caso dos macacos-prego estudados na Bahia, por exemplo, as áreas de cultivo de cacau, conhecidas como cabruca, ofereciam alimentos mais nutritivos, mas também apresentavam maior pressão de caça. A população estudada já havia sido observada evitando esses locais e utilizando áreas de floresta com alimentos menos nutritivos. Para Andrea, os resultados reforçam a ideia de que, em determinadas situações, a segurança pode ser priorizada em relação à obtenção de alimento.
"A gente acredita que são as duas coisas (que contribuem): segurança ao invés de arriscar novos caminhos e também segurança primeiro, e a comida depois", completa. E os elefantes? Entre os elefantes, a relação foi mais complexa.
A frequência de uso das rotas variou de acordo com o tipo de ambiente e com a presença de caça. Em áreas onde a caça era permitida, os elefantes aumentaram o uso de rotas habituais em diferentes ambientes, como áreas de vegetação arbustiva, campos, áreas agrícolas, regiões urbanizadas e bosques. Diante do perigo, macacos e elefantes preferem caminhos que já conhecem Andrea Presotto Mas os próprios pesquisadores apontam que a repetição dos caminhos pode ter mais de uma explicação.
Em alguns locais, a fragmentação da paisagem pode limitar as opções disponíveis e obrigar os animais a utilizar determinados corredores de vegetação. Segundo Andrea, os dois fatores funcionam como uma via de mão dupla: a paisagem fragmentada pode reduzir as opções de deslocamento, enquanto a presença de caçadores pode favorecer a escolha de caminhos já conhecidos e percebidos pelos animais como mais seguros.
Os elefantes estudados viviam em uma região marcada por diferentes usos da terra, incluindo áreas agrícolas, urbanizadas, parques e locais onde a caça pode ocorrer. O trabalho acompanhou dez machos adultos, cada um pertencente a uma manada diferente, durante um período que somou 3.408 dias de observação. Efeito sobre as plantas A mudança na forma como os animais se deslocam também pode ter consequências para outras espécies, desta vez vegetais.
Elefantes e macacos participam da dispersão de sementes e, portanto, ajudam na regeneração e na conexão entre áreas de floresta. Se os deslocamentos ficam concentrados em um número menor de caminhos, as sementes que seriam transportadas para diferentes pontos da mata podem ter sua distribuição alterada. Andrea ressalta que ainda é cedo para determinar exatamente qual será o impacto dessa mudança sobre a vegetação.
De toda forma, o estudo aponta que a limitação das rotas tem potencial de produzir efeitos de longo prazo sobre a dispersão de sementes e sobre as conexões ecológicas da floresta. Na natureza, cada caminho pode representar uma escolha. Ao repetir trajetos conhecidos em locais de maior risco, esses animais mostram como memória, percepção e comportamento podem se combinar para enfrentar os perigos do dia a dia.
*Sob supervisão de Rodrigo Peronti. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente
