Ave-Do-Paraíso-Vermelha (Paradisaea rubra) bloch / iNaturalist Ter uma plumagem cheia de cores pode chamar a atenção de observadores, fotógrafos e admiradores da natureza. Mas essa mesma característica também aparece associada a um cenário menos favorável para algumas aves.
📱 Acompanhe o Terra da Gente também no Instagram Um estudo publicado na revista científica Conservation Biology analisou 4.334 espécies de passeriformes de diferentes partes do mundo e encontrou uma associação entre plumagens mais coloridas e níveis mais elevados de ameaça de extinção. A pesquisa corresponde a cerca de 65% das espécies viventes do grupo e reúne representantes de 133 famílias.
Segundo os pesquisadores, “em comparação com espécies de coloração discreta, passeriformes coloridos apresentam maior risco de extinção”. A relação foi especialmente evidente na Indomalásia e na Australásia. Para chegar ao resultado, os cientistas não classificaram subjetivamente quais aves eram mais bonitas.
A análise utilizou dados de coloração obtidos a partir de espécimes do Museu de História Natural, no Reino Unido, e considerou o número de cores distintas presentes na plumagem dentro do espectro visível aos seres humanos. Os pesquisadores também controlaram características que poderiam influenciar o risco de extinção, como massa corporal, capacidade de dispersão, dependência de ambientes florestais e dieta. Mesmo assim, a associação com a coloração permaneceu.
Isso não significa, porém, que ter penas coloridas cause maior risco de extinção. O estudo identifica uma associação estatística e investiga fatores que podem ajudar a explicá-la.
Saíra-Sete-Cores (Tangara seledon) anewmark / iNatualist Veja mais notícias do Terra da Gente, no g1: NOVA PESQUISA: Quando faltam frutos, macacos-prego aumentam caça de pequenos vertebrados, aponta estudo VENENO QUE PARALISA E 'DERRETE': Veja como a aranha-de-alçapão caça em esconderijo perfeito RIOS, CÉUS E SORRISOS: Casal sobrevoa áreas remotas para unir pesca e atendimentos dentários Beleza que também desperta interesse Uma das principais hipóteses envolve o comércio de aves.
Na amostra utilizada no estudo, 32% das espécies estavam registradas como envolvidas no comércio de aves vivas. Pesquisas anteriores já haviam mostrado que aves mais coloridas tendem a ser comercializadas com maior frequência e podem atingir preços mais altos. Os autores encontraram evidências de que a relação entre coloração e ameaça é mais forte entre espécies comercializadas.
O comércio, porém, não explica tudo. Veja o que está em alta no g1: Agora no g1 Mesmo entre espécies sem registro conhecido no comércio de animais de estimação, a coloração continuou sendo um preditor positivo do nível de ameaça. Para os pesquisadores, o resultado indica que outros mecanismos também podem estar envolvidos.
“Se o comércio ilegal de animais de estimação continuar sem controle, tendo como alvo espécies mais coloridas e ameaçadas, o resultado poderá ser um mundo menos colorido”, afirmam os autores no estudo, em tradução livre. Diamante de Gould (Chloebia gouldiae) dawolef / iNaturalist E no Brasil? A relação encontrada em escala global não aparece da mesma forma em todas as regiões.
Nos Neotrópicos — região biogeográfica que inclui o Brasil —, os pesquisadores encontraram pouca ou nenhuma relação entre o nível de ameaça e a coloração dos passeriformes. Na amostra, 25% das espécies neotropicais tinham registros de comércio, contra 46% na Indomalásia. Os autores levantam algumas possibilidades para explicar a diferença.
Uma delas é que, na América Latina, parte importante do comércio de aves envolve outros grupos que não fizeram parte da pesquisa, como papagaios, beija-flores e pombos. Saíra-Pintor (Tangara fastuosa) pedrocallado / iNaturalist Para o ornitólogo Alexandre Freitas, uma característica cultural brasileira também deve ser considerada: a valorização do canto entre criadores de pequenos passeriformes. “No Brasil, infelizmente existe uma forte tradição de criação de pequenas aves ligada à habilidade vocal.
Espécies de plumagem mais discreta, como o bicudo e o curió, estão entre as visadas pelo canto”, explica. Há dados científicos que ajudam a sustentar essa interpretação. Um estudo realizado na Amazônia Oriental com 62 criadores e comerciantes encontrou 23 espécies de passeriformes mantidas ou comercializadas, com predominância do gênero Sporophila.
O curió (Sporophila angolensis) apresentou o maior valor de uso e econômico, e o preço das aves estava relacionado, entre outros fatores, à habilidade de canto. A pesquisa também registrou participação de criadores em competições de canto. Isso não significa, no entanto, que a preferência pelo canto explique sozinha o resultado encontrado para os Neotrópicos.
O próprio estudo global não testou essa relação cultural especificamente. Soldadinho-Do-Araripe (Chiroxiphia bokermanni) ajwhitlock / iNaturalist A cor pode se somar a outros riscos Outra possibilidade discutida pelos autores envolve a predação. Aves mais coloridas podem ser mais conspícuas, enquanto transformações ambientais, como fragmentação do habitat e aumento das temperaturas, podem alterar as relações entre predadores e presas.
Freitas considera que a perda da cobertura florestal pode contribuir para essa exposição. “Quando fragmentamos uma mata e criamos grandes bordas expostas, uma ave de plumagem muito vistosa pode ficar mais conspícua”, afirma. A hipótese, porém, ainda precisa ser investigada.
O estudo não mediu diretamente ataques de predadores contra aves mais coloridas em ambientes fragmentados e os próprios autores apresentam a predação como um dos possíveis mecanismos por trás da associação encontrada. Um padrão que muda pelo mundo A geografia revelou outras diferenças. Países como Indonésia, Malásia, Tailândia, Myanmar e Filipinas concentraram tanto altos níveis médios de coloração quanto porcentagens elevadas de espécies sob preocupação de conservação.
Ao contrário do que os cientistas inicialmente esperavam, a associação entre coloração e ameaça também ficou mais forte entre espécies que se reproduzem em latitudes mais altas, mais distantes do Equador. Outro padrão apareceu quando os pesquisadores consideraram o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH): a associação entre aves coloridas e ameaça foi maior entre espécies distribuídas por países de menor IDH.
Os autores discutem a possibilidade de pressões como captura e comércio informal ou ilegal serem mais intensas nesses locais, mas o resultado não demonstra que o baixo IDH seja a causa do maior risco. No fim, a pesquisa expõe um paradoxo: a beleza que aproxima as pessoas das aves e pode transformá-las em símbolos da conservação também pode aumentar o interesse humano em capturá-las.
Para os pesquisadores, a coloração deve ser considerada ao lado de ameaças já conhecidas, como perda e fragmentação de habitat e comércio ilegal, especialmente em regiões onde diferentes pressões podem agir ao mesmo tempo. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente
