Foto de arquivo mostra Jomard Muniz de Britto sendo entrevistado Reprodução/TV Globo Morreu, nesta segunda-feira (12), o professor, filósofo, poeta e cineasta Jomard Muniz de Britto, aos 89 anos. Ele participou ativamente dos debates sobre a modernização cultural do Nordeste e foi um dos principais nomes dos estudos tropicalistas em Pernambuco e da chamada “Geração Super-8”, movimento que marcou o cinema pernambucano nas décadas de 1970 e 1980.

Ao g1, um parente do cineasta informou que Jomard morreu às 3h30 no Hospital Unimed, no bairro da Ilha do Leite, na área central do Recife, após ter uma infecção generalizada nos pulmões. O velório acontece nesta segunda-feira, no Cemitério de Santo Amaro, no Centro da capital pernambucana, e o enterro às 16h no mesmo local. ✅ Receba no WhatsApp as notícias do g1 Jomard foi internado no sábado (10), com insuficiência respiratória, e recebeu o diagnóstico de broncopneumonia.

Segundo a família, ele foi diagnosticado com Parkinson no início da pandemia de Covid-19 e, nos anos seguintes, passou a apresentar fragilidades de saúde. O médico que acompanhava o cineasta informou que a morte ocorreu em decorrência de complicações da doença de Parkinson. Agora no g1 Perfil e carreira Nascido em 1937 no Recife, Jomard era filho de pai paraibano e mãe pernambucana.

Estudou no Ginásio Pernambucano e se formou em filosofia pela antiga Universidade do Recife, atual Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Ao longo de mais de quatro décadas de atuação cultural, Jomard escreveu livros e realizou filmes, a maioria deles curtas-metragens, incluindo: “Recinfernália"; “Esperando João”; “O Palhaço Degolado”; “Inventário de um Feudalismo Cultural”; “Escrevivendo”; “Arrecifes do Desejo”. O cineasta começou a trajetória profissional como professor no ensino básico.

No fim da década de 1960, tornou-se um entusiasta da estética tropicalista e buscou adaptá-la à realidade local. Nesse contexto, criou o termo “Pernambucália”, em contraposição ao que chamava de “tradicionalismo tropicológico” na cena cultural do estado. Ele integrou também a equipe inicial do Sistema Paulo Freire de Educação de Adultos na década de 1960, a convite do educador.

Na ditadura militar, foi preso em 1964 e levado ao Forte das Cinco Pontas, no Recife, onde dividiu cela com o político Gregório Bezerra e o advogado Joel Câmara. Jomard também ficou conhecido pelas críticas ao conservadorismo e pelos embates com outros nomes da cultura nordestina, como o escritor e dramaturgo Ariano Suassuna, com quem estudou estética armorial na então Universidade do Recife.

Nas décadas de 1970 e 1980, Jomard se tornou um dos expoentes do cinema experimental pernambucano, com destaque para a produção em Super-8, formato de película que, por ser mais acessível, favoreceu a realização de filmes independentes durante a ditadura militar. Notas de pesar O prefeito do Recife, Victor Marques (PCdoB), publicou uma nota de pesar nas redes sociais lamentando a morte de Jomard. "Recebi com tristeza a notícia do falecimento de Jomard Muniz de Britto.

Sempre ativo e provocador, Jomard dedicou a vida à arte e a fazer do Recife uma referência de criatividade e pensamento crítico. Meus sentimentos aos familiares e amigos. Que Deus conforte seus corações", disse no comunicado.

A Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), que realizou, em 2024, a exposição "Arrecife de Desejo: do Pau-Brasil à Pop Filosofia", dedicada a Jomard, também lamentou a morte e destacou a trajetória do artista. "Jomard foi perseguido pela ditadura civil- militar e nunca deixou de provocar com sua língua dos três pês: poeticidade, política e pedagogia. Admirado por Paulo Freire, com quem percorreu o país, Glauber Rocha, Caetano Veloso e Gilberto Gil, Jomard fez da experimentação sua forma de existir", afirmou.

A Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) também lamentou a morte de Jomard e destacou sua contribuição para a cultura pernambucana. "Figura inquieta e transgressora, Jomard construiu uma obra marcada pela experimentação, pela liberdade criativa e pelo questionamento das convenções.

[...] Em 2025, parte dessa contribuição ganhou a tela do Cinema São Luiz, com a exibição de cinco de seus filmes em Super-8 digitalizados e restaurados, durante o festival Janela Internacional de Cinema do Recife. Um bela e justa homenagem, que contou com a presença do cineasta na ocasião", declarou. A prefeitura do Recife, por meio da Secretaria de Cultura e da Fundação de Cultura Cidade do Recife, também ressaltou a importância de Jomard.

"Dedicou-se com furioso ímpeto ao gozo e à reivindicação de suas liberdades e das liberdades coletivas e culturais de um povo inteiro: escreveu mais de dez livros, algumas peças de teatro e mais de 30 filmes e vídeos, abrindo caminhos culturais e contraculturais pelos quais seguiremos lutando", contou. VÍDEOS: mais vistos de Pernambuco nos últimos 7 dias