Conhecida como a 'Rainha da Sofrência', Marília Mendonça surgiu como ícone do 'feminejo' A admiração de um fã por seu ídolo é capaz de construir laços profundos que vão muito além da música. Quando uma dessas referências morre de forma repentina, o impacto da perda marca quem acompanha a carreira e transforma a dor da partida em uma experiência coletiva de luto. Nesta quinta-feira (5), a tragédia que tirou a vida de Marília Mendonça em um acidente aéreo em Caratinga (MG) completa cinco anos.

📲 Participe do canal do g1 Bauru e Marília no WhatsApp Para marcar a data, o g1 conversou com fãs da cantora que relembraram o choque ao receberem a notícia da morte, o vazio deixado pela ausência da artista e o processo de ressignificar as lembranças para seguir em frente.

LEIA MAIS Há 27 anos, Rick e Renner faziam show histórico que reuniu mais de 60 mil pessoas em Bauru Piloto que morreu em queda de planador atuou em caso de acidente aéreo de Marília Mendonça Marília Mendonça fez seu último show no interior de SP; veja imagens 'Como se tivesse perdido alguém próximo' A estudante de jornalismo Julia Íris Ferreira, aluna da Unesp de Bauru (SP), guarda com exatidão a lembrança do momento em que recebeu a confirmação da tragédia. “Lembro como se fosse ontem!

Estava no meu quarto e vi uma notícia no celular, corri pra ver na televisão e só passava aquela imagem do avião caído. Foi uma sensação horrível, como se tivesse perdido alguém próximo”, recorda a jovem. Julia Íris Ferreira, estudante de Jornalismo da Unesp de Bauru, sofreu com a morte de Marília Mendonça Arquivo pessoal A ligação de Julia com as canções de Marília começou há cerca de dez anos e se entrelaçou com a própria história da família.

Em casa, a música da artista era a trilha sonora oficial dos fins de semana. “Meu pai e minha falecida madrasta também eram muito fãs. Eu lembro que todo fim de semana meu pai colocava as músicas no computador, num pendrive que ele tinha, e a gente ouvia o dia inteiro enquanto eles faxinavam a casa”, detalha.

A memória afetiva ganhou um peso ainda mais doloroso meses antes da queda do avião. A madrasta de Julia, responsável por apresentar o repertório da cantora à jovem, morreu em 2021 em decorrência de complicações da Covid-19. Quando a artista morreu aos 26 anos, a dor da perda familiar foi reaberta.

“Sempre lembro da minha madrasta quando ouço as músicas hoje em dia. Ela era muito fã e eu a conheci por causa dela. Quando a Marília morreu, foi como se esse pedacinho também tivesse ido embora junto, essa memória”, conta a estudante.

Julia Íris Ferreira conheceu a arte da cantora com o pai e a madrasta Arquivo pessoal Julia, que acompanhou os últimos anos da cantora, afirma que a conexão entre admirador e artista vai além do entretenimento. “Só quem é fã entende mesmo. Ser fã vai além de só ouvir a música.

Você se conecta com a letra e a melodia. É como se a pessoa te conhecesse e fizesse a arte especialmente para você”. Veja trechos inéditos da última entrevista de Marília Mendonça para o Fantástico Pausa nas playlists Assim como Julia, que se lembra com exatidão de onde estava quando soube do acidente, a profissional de relações públicas Natasha Moron, de 36 anos, também guarda a memória do impacto da notícia.

Natasha Moron, de 36 anos, estava na academia quando soube da morte da cantora Arquivo pessoal Ao g1, a moradora de Bauru recorda que estava na academia no momento em que as primeiras confirmações começaram a circular. “Fiquei totalmente incrédula. Chegou no celular de todo mundo a notícia.

Quando veio a confirmação da morte, acabou o treino para todo mundo. Foi difícil acreditar”, conta. Para a profissional, o repertório da sertaneja sempre esteve presente em viagens e momentos de descontração com a família e amigos.

Com o choque do acidente aéreo, Natasha conta que precisou de um tempo afastada das obras da compositora para conseguir assimilar a perda. “Por um tempo, eu não queria ouvir e ver algo relacionado à Marília Mendonça. Era triste ver como tudo isso acabou.

Eu me afastei, assim como fiz com a morte do Paulo Gustavo, de quem eu também precisei me afastar da arte”, relata Natasha. Amor de fã e a psicologia do luto A identificação e a dor descritas pelas fãs encontram explicação clínica na psicologia. Segundo a psicóloga Rhuane Frascarelli, não há diferença estrutural entre o luto vivido por um familiar e o sentimento gerado pela perda de uma figura pública.

“Luto não acontece só quando a gente perde alguém da família. Ele acontece quando existe um vínculo, uma referência afetiva, algo ou alguém que ocupava um lugar importante na nossa história”, esclarece a profissional. Fãs visitam túmulo de Marília Mendonça em cemitério de Goiânia, Goiás Gustavo Cruz/g1 “A morte de um artista pode tocar dores que a própria pessoa nem sabia que ainda estavam ali.

O que importa é compreender o significado daquela perda, e não medir a dor de quem está sentindo”, completa. De acordo com Rhuane, o fato de Marília cantar sobre sentimentos cotidianos encurtava distâncias. “Muitas pessoas se identificavam com a Marília porque ela cantava sobre coisas muito humanas: amar, sofrer, se decepcionar, recomeçar.

Quantas mulheres não ouviram uma música e pensaram: ‘parece que ela está contando a minha vida’? Existe uma identificação, uma afinidade, um vínculo afetivo, mesmo que a artista nunca tenha conhecido aquela fã”. A especialista explica que essa relação também se fundamenta no conceito de projeção, estruturado pela psicologia analítica de Carl Gustav Jung.

“Na psicologia junguiana, a gente fala sobre projeção. De maneira simples, é quando enxergamos no outro algo que tem uma ligação muito profunda com o nosso próprio mundo interno: um desejo, uma força, uma ferida, uma versão de nós que gostaríamos de viver. Um artista pode representar coragem, liberdade, autenticidade e superação.

Quando essa figura morre, não é só a pessoa pública que se perde. A gente também sente que perdeu uma referência, uma imagem que nos ajudava a contar a nossa própria história.” Por fim, a profissional reforça que o processo de superação não envolve apagar lembranças, mas reorganizar o sentimento dentro da rotina. “Cinco anos depois, a saudade pode continuar, mas o que a gente busca é que ela encontre um lugar onde exista memória e afeto, sem impedir a vida de seguir.

O luto não mede o tamanho da convivência. Ele revela o tamanho do significado”, finaliza a profissional. Psicóloga Rhuane Frascarelli explica os processos do luto após a morte de alguém querido Arquivo pessoal *Colaborou sob supervisão de Paulo Piassi Initial plugin text Veja mais notícias da região no g1 Bauru e Marília VÍDEOS: assista às reportagens da região