Animador de Uberaba fala do seu trabalho em 'O Bosque Selvagem' candidato ao Oscar em 2027 Um cavalo que precisa galopar com naturalidade, um coiote que marcha e uiva e personagens que parecem respirar. Por trás de movimentos que duram poucos segundos na tela, existem horas de trabalho minucioso, centenas de peças e profissionais dedicados a dar vida a bonecos. É nesse universo que o animador Thiago Calçado, de Uberaba, no Triângulo Mineiro, construiu parte de sua trajetória internacional.
Ele integrou a equipe de 'O Bosque Selvagem' (Wildwood), animação em stop-motion do estúdio norte-americano Laika demorou 16 anos para ficar pronto. O filme de Travis Knight é candidato ao Oscar de Melhor Animação em 2027 e liderou o ranking de bilheteria no Brasil, segundo divulgação da distribuidora Imagem Filmes no domingo (1º).
✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Triângulo no WhatsApp Thiago Calçado, de Uberaba, construiu trajetória internacional Reprodução/Arquivo Pessoal Para Thiago, o resultado representa mais do que números nas bilheterias. É também o reconhecimento de um estúdio que acompanha e admira há anos. "O Laika finalmente está tendo o reconhecimento que merece.
Sou grande fã desde 'Coraline'. O estúdio sempre foi original no jeito de contar histórias, inovador, e evoluiu a técnica do stop-motion", afirmou. O animador também comemorou fazer parte da equipe responsável pelo longa.
"É gratificante fazer parte desse time. O filme está maravilhoso e estou feliz em fazer parte dessa conquista, que é muito difícil." Dois anos de dedicação Embora o desenvolvimento de 'O Bosque Selvagem' tenha levado 16 anos, o período não correspondeu integralmente às filmagens. Segundo Thiago, o intervalo inclui desde a aquisição dos direitos do livro que inspirou a história até a captação de recursos, o planejamento e a organização de toda a produção.
A etapa de filmagem durou cerca de cinco anos, entre 2021 e 2026. Desse período, o mineiro participou de pouco mais de dois anos de trabalho. Quando deixou a produção, em 2025, ainda faltava aproximadamente 20% do filme para ser concluído.
E não faltaram desafios. Conhecido por elevar constantemente o nível técnico de suas animações, o estúdio desenvolveu novas soluções para tornar os movimentos dos bonecos ainda mais realistas. Uma das novidades foi a inclusão de mecanismos de respiração.
Se em produções anteriores os animadores precisavam recorrer a movimentos mais rudimentares para simular a expansão do peito dos personagens, agora havia mecanismos específicos para isso. Animador diz que novas tecnologias encorporadas aos bonecos ajudaram no processo de animação Reprodução/Arquivo Pessoal Os cabelos também exigiram atenção especial, principalmente nos personagens com fios mais complexos, como Alexandra, a vilã da história. "Na Laika, a animação é mais realista, mais naturalista.
Já é difícil alcançar esse nível de exigência e, no topo disso, você ainda coloca bonecos mais complexos para animar, com cabelo, com respirador", explicou. No caso de Thiago, um dos principais desafios foi dar movimento aos quadrúpedes. Ele ficou responsável por diversas cenas com cavalos, além de participar da animação de coiotes e de uma cena com Prue, protagonista da história.
O cavalo utilizado na produção, por exemplo, tinha mais de 300 peças. A complexidade do boneco exigia atenção aos mínimos detalhes para que os movimentos fossem convincentes. "Eu gosto de desafio.
O lance dos cavalos cavalgando é algo mais mecânico, mas, para mim, o desafio era conseguir fazer a física correta da cena, a gravidade atuando naqueles personagens. Eu nunca tenho chance de animar cavalo, então achei que poderia ser uma oportunidade rara", contou. Animadores também são atores?
Gravações do longa 'O Bosque Selvagem' Reprodução/Arquivo Pessoal Para quem assiste ao resultado nas telas, pode parecer que os bonecos simplesmente ganham vida. Mas, para Thiago, existe uma dimensão artística que aproxima o trabalho dos animadores ao dos atores. Ele explica que os profissionais não apenas movimentam os personagens: também ajudam a construir suas personalidades, expressões e maneiras de agir.
Uma das experiências mais marcantes da carreira foi a animação da Morte, personagem do filme 'Pinóquio', produção dirigida por Guillermo del Toro. Thiago passou dois anos trabalhando praticamente todos os dias com o personagem, desenvolvendo seus trejeitos e sua personalidade em parceria com o diretor. "Toda vez que tirava o boneco para fazer um reparo, eu brincava que estava levando o cadáver para o hospital dos bonecos.
Porque, quando ele vem para a minha mão, é aí que a gente coloca a alma nele", disse. A comparação não é apenas poética. A palavra animação tem origem no latim anima, associada à ideia de alma.
Para o mineiro, é justamente essa capacidade de transformar um objeto inanimado em um personagem com vida própria que torna a profissão tão especial. "Quando eu pego um boneco inanimado, coloco ele no primeiro frame e começo a animar, o bicho está vivo. Isso me traz muita gratificação.
Eu fico muito feliz e penso: 'Que coisa legal poder exercer isso. Que legal que me pagam para fazer isso'", afirmou. Em 'O Bosque Selvagem', essa relação com os personagens também é coletiva.
A protagonista Prue, por exemplo, tinha 30 bonecos diferentes, o que significa que vários animadores contribuíram para construir a atuação de uma mesma personagem.
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Foram 231 semanas de produção, 2.804 planos na versão final, 132 cenários práticos e 117 locações construídas para compor o universo da história. O longa também tem mais de duas horas de duração, sendo o mais longo filme em stop-motion da história. O orçamento, segundo Thiago, chegou a US$ 100 milhões, aproximadamente meio bilhão de reais.
Mas, para quem esteve nos bastidores, a dimensão do trabalho não se resume às estatísticas. "Enquanto vocês, na audiência, veem os números, a gente vê as pessoas. Eu sei quem fez o cavalo, quem arrumava o cavalo quando ele quebrava.
Tem a pessoa que cuida do cabelo da Alexandra, a pessoa que está pincelando um pedacinho de cenário que nem vai aparecer direito no filme", explicou. O animador destaca que cada detalhe é resultado de uma cadeia de profissionais especializados. Até mesmo os movimentos dos animais foram estudados com atenção: o responsável pela construção dos cavalos chegou a convidá-lo para observar um animal real e estudar seus movimentos antes de animar as cenas.
É um trabalho que também deixa marcas em quem participa. Thiago lembra que passou dois anos em um cenário escuro, iluminado por uma luz roxa que piscava, enquanto trabalhava na personagem Morte, de 'Pinóquio'. "Você dedica muito.
Eu brincava que a gente olhava pela janela e falava: 'Está vendo lá longe? Nossa juventude indo embora'. Você fica muito envolvido naquela dramaticidade, acaba se emocionando com a história.
Você leva um pouco do personagem e deixa muito de você no filme", contou. A experiência também o fez refletir sobre a própria vida. Durante a produção de 'Pinóquio', parte do trabalho aconteceu na pandemia de Covid-19, período em que ele e outros profissionais perderam pessoas próximas.
A personagem Morte tinha diálogos sobre a brevidade da vida e a importância do presente. Uma das frases que mais marcaram Thiago dizia que o que torna a vida preciosa é justamente a morte, porque ninguém sabe se estará aqui no dia seguinte. "Você está animando um personagem que fala sobre a vida em um momento tão delicado.
Isso acaba te mudando um pouco, incita muitas reflexões. Dois anos foram brabos", relembrou. Do interior de Minas para o cinema internacional Thiago Calçado nasceu em Uberaba Reprodução/Arquivo Pessoal Natural de Uberaba, Thiago encontrou nas histórias em quadrinhos as primeiras referências para construir o caminho artístico.
Na infância, cresceu lendo trabalhos de Ziraldo, Angeli, Laerte e Glauco. O contato com a animação veio depois, quando se mudou para São Paulo. Até então, desenhava constantemente, mas não imaginava que transformaria os próprios personagens em figuras animadas.
"Foi paixão à primeira vista. Depois que você vê os seus personagens animados, é muito legal", lembrou. Hoje, além de participar de grandes produções internacionais, ele também mantém projetos voltados ao público infantil.
São duas séries na TV Cultura e um estúdio em Florianópolis, onde concentra os esforços para desenvolver histórias próprias. A ideia é aproveitar a experiência adquirida em produções estrangeiras para fortalecer a animação brasileira. "Eu acho que está na hora de a gente olhar para a gente mesmo.
Como um país que não só consome e exporta talento, mas que consegue fazer as nossas próprias histórias e competir de igual para igual", afirmou. Um dos projetos em desenvolvimento é um longa-metragem baseado no livro 'A Caixa Preta', do escritor Thiago de Mello Andrade, também de Uberaba e vencedor do Prêmio Jabuti em 2001. A produção deve misturar animação 2D e stop-motion e ainda está em fase inicial, com desenvolvimento de personagens e roteiro.
Para o animador, contar uma história escrita por um autor da mesma cidade onde nasceu é uma oportunidade de valorizar a cultura brasileira. "É lindo, porque é um escritor de Uberaba contando uma história nossa. Vou tentar deixar muita coisa da nossa cultura nessa história.
A gente tem que exportar o que é nosso. Quanto mais pessoal, mais criativo", destacou. 'Não existe fracasso para quem não para' Apesar de já ter trabalhado em produções reconhecidas internacionalmente e de acompanhar de perto a possibilidade de novas premiações, Thiago diz que o Oscar nunca foi o objetivo principal de quem trabalha com animação.
Para ele, o mais importante é criar histórias capazes de emocionar, provocar reflexões e inspirar outras pessoas. O reconhecimento da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas seria uma consequência desse esforço. "Se ganhar, a gente vai celebrar como uma grande vitória.
É um atestado de que todo aquele esforço foi reconhecido. Mas a gente não começa a trabalhar porque quer ganhar Oscar. Começa porque quer contar uma história que vai tocar o coração das pessoas", afirmou.
E é justamente a possibilidade de inspirar outras crianças, especialmente aquelas que vivem longe dos grandes centros de produção artística, que dá um significado especial à própria trajetória. Ao falar diretamente com quem sonha em trabalhar com animação, o mineiro deixa um conselho que também resume o caminho que percorreu até chegar a grandes estúdios. "Em tempos de redes sociais, o principal é não se comparar com ninguém.
As pessoas estão em jornadas diferentes, com estruturas diferentes. Seja gentil com você mesmo, respeite o tempo do seu processo e nunca pare de produzir. Não existe fracasso para quem não para", aconselhou.
E completa: "A arte é uma coisa delicada, porque você está sempre expondo suas entranhas para ser julgado. Então, não tenha medo do julgamento. Faça uma coisa pessoal, porque quanto mais pessoal, mais autoral e mais criativo você vai conseguir ser.
Não tem atalho: é baixar a cabeça e trabalhar". Thiago Calçado durante gravaç Reprodução/Arquivo Pessoal VÍDEOS: veja tudo sobre o Triângulo e
