Netinho (1966 – 2026) deixa discografia que alcançou o auge entre 1988 e 1996 Divulgação ♫ OBITUÁRIO ♬ Embora as vozes femininas sejam sobressalentes na história da música afro-baiana rotulada como axé music, uma voz masculina se impôs nas décadas de 1980 e 1990, anos de ouro desse universo musical tropicaliente que abarca vários gêneros musicais do Brasil e de países vizinhos da América Latina, tendo como base o samba-reggae dos blocos afros.
Trata-se da voz de Ernesto de Souza Andrade Júnior (12 de julho de 1966 – 13 de outubro de 2026), o cantor e compositor projetado em todo o Brasil como o nome artístico de Netinho.
Morto hoje em hospital de Salvador (BA), aos 60 anos, em decorrência de complicações de câncer no sistema linfático, Netinho já estaria na história da axé music somente pelo sucesso fenomenal de “Milla”, canção de Manno Góes e Tuca Fernandes lançada em 1995 pela banda Jheremmias Não Bate Corner, mas efetivamente popularizada em todo o Brasil na voz de Netinho em 1996 em álbum ao vivo que ultrapassou o milhão de cópias vendidas.
Contudo, seria injusto reduzir a importância de Netinho ao êxito extraordinário de “Milla”, música cujo alcance ultrapassou as fronteiras do Brasil. Revelado em 1998 como vocalista da Banda Beijo, ainda na fase inicial do axé, Netinho ficou até 1992 no grupo, período em que deu voz a sucessos como “Beijo na boca” (João Guimarães e George Dias, 1988) – o primeiro hit do cantor – e “Barracos (Escombros)” (Tenilson Del Rey, 1992).
Contudo, Netinho ampliou o sucesso e a visibilidade ao sair em carreira solo em 1993, promovido pela gravadora Philips como um galã do axé, com o álbum “Um beijo pra você”, do qual saiu o grande hit “Capricho dos deuses” (Jau e Jorge Zarath, 1993). Na sequência, o artista lançou os álbuns “Nada vai nos separar” (1994) e “Netinho” (1995). Foi do repertório deste disco de 1995 que saiu mais um grande sucesso de Netinho, “Preciso de você” (1995), composição de Gigi Cerqueira e Boca.
A Bahia vivia a era das levadas loucas que arrastavam multidões atrás dos trios elétricos e também em shows, alguns perpetuados em discos. O álbum “Netinho ao vivo!” entrou nessa onda em 1996 e amplificou a já mencionada “Milla”, fazendo história na indústria fonográfica brasileira. Essa gravação ao vivo representou o auge da carreira do cantor.
Netinho ainda emplacaria sucessos de certo alcance nacional, como “Me leva” (Gigi Cerqueira e Jau, 1997). No entanto, com o progressivo declínio da axé music a partir dos anos 2000, o cantor jamais bisaria o sucesso de outrora com álbuns como “Rádio Brasil” (1998), “Clareou” (1999), “Corpo & cabeça” (2000) e o ao vivo “Terra carnavalis” (2001). Não por acaso, o cantor tentaria outras levadas.
Em “Zuêra” (2003), obscuro disco de intérprete, Netinho deu voz a sucessos de Jorge Ben Jor, Marcos Valle e Rita Lee (1947 – 2023). Alguns anos e álbuns depois, Netinho tentou até incursionar pelo universo do forró no álbum “Uma noite no forró elétrico” (2012). Nada fez barulho além do nicho de seguidores do artista.
Nos últimos anos, isolado no meio artístico por conta de posicionamentos políticos em apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro, Netinho entrou na era dos singles como “Sinalzinho de esperança” (2023) e “Obrigado meu Deus” (2025). Mas voltou aos hits do passado de glória no último álbum, “Grandeza e simplicidade” (2026), gravado ao vivo em dezembro de 2025 e lançado em 12 de julho.
Nas 19 músicas distribuídas nas 14 faixas desse álbum derradeiro, Netinho reviveu sucessos que fizeram dele um nome relevante na era de ouro das levadas loucas.
