Transportadora subcontratou motorista para entregar carga de soja, porém veículo foi furtado Divulgação Quando se trata de soja, Brasil e China têm uma relação de interdependência: o Brasil é o maior fornecedor do grão para o país asiático, enquanto a China é a principal compradora da soja brasileira.
Mas essa relação pode estar ameaçada por três motivos, segundo especialistas ouvidos pelo g1: Após anos de guerra comercial com os Estados Unidos, a China voltou a comprar soja norte-americana, o que pode reduzir o espaço do produto brasileiro no mercado chinês; O país asiático quer depender menos das importações de soja, ampliando a produção interna e reduzindo o consumo do grão; A população chinesa deve diminuir nos próximos anos, o que pode reduzir a demanda por alimentos ricos em proteínas e, consequentemente, por soja.
Uma contração da demanda chinesa traz o risco de quedas simultâneas nos preços e nas receitas de exportação. De acordo com relatório da consultoria Systemiq, isso pode gerar efeitos em cascata sobre a renda dos produtores rurais, a valorização das terras, o emprego no campo e a infraestrutura de processamento.
Por isso, os especialistas recomendam que o setor se prepare para uma possível redução das exportações, evitando ampliar a área plantada de soja ou investindo no processamento do grão para agregar valor à produção. Como milho e soja vêm tomando área de arroz e feijão há 19 anos Concorrência entre EUA e Brasil pela China A China assumiu o compromisso de comprar 25 milhões de toneladas de soja dos Estados Unidos anualmente entre 2026 e 2028.
Além disso, os chineses se comprometeram a adquirir pelo menos US$ 17 bilhões (R$ 86,1 bilhões) por ano em produtos agrícolas norte-americanos. A medida foi anunciada em maio, após Trump retornar de uma cúpula em Pequim, onde buscou amenizar o impacto da guerra comercial que ele mesmo iniciou no ano passado com o tarifaço. Em resposta às tarifas americanas, a China impôs um imposto adicional de mais de 20% sobre uma série de produtos, incluindo a soja.
Segundo a Associação de Soja dos EUA (ASA, na sigla em inglês), a medida tornou o grão norte-americano consideravelmente mais caro que o produzido na América Latina. Como consequência, as exportações de soja norte-americana para a China caíram 50% em um ano. A redução também contribuiu para uma queda de 40% nos preços do produto.
Brasil X EUA: o quanto cada país vende de soja para a China Arte / g1 O cumprimento do acordo para a compra de 25 milhões de toneladas pode aumentar a concorrência com a soja brasileira. Ainda assim, para Larissa Wachholz, especialista em China, é um sinal positivo que os dois países não tenham firmado novos acordos. Em setembro, EUA e China concordaram em reduzir as tarifas sobre US$ 60 bilhões (cerca de R$ 311 bilhões) em mercadorias importadas um do outro.
A soja ficou de fora do acordo e manteve uma tarifa de 13%, estabelecida após negociações sobre o tarifaço. "[Manter] essa tarifa acaba também sendo uma sinalização de cautela, de que a relação está estável, mas que ela não está totalmente normalizada", afirma Wachholz. A tarifa favorece a competitividade do Brasil, já que a soja brasileira é taxada em apenas 3%.
“Essa diferença de 10 pontos percentuais ajuda a preservar a competitividade brasileira, pelo menos no curto prazo, mesmo com a aproximação bilateral", afirma Patrícia Ellen, líder global de Natureza e Sistemas Alimentares da Systemiq. Ainda assim, a China vem comprando soja norte-americana para cumprir o compromisso. A especialista explica que o volume de 25 milhões de toneladas está dentro dos patamares que o país já havia adquirido dos EUA em anos anteriores.
Desde 2017, o Brasil se consolidou como o principal fornecedor de soja da China. No passado, a participação dos dois países nas importações chinesas era mais equilibrada. Em 2016, por exemplo, os EUA forneceram 41% da soja comprada pela China.
Naquele ano, o Brasil respondeu por 45%. Compare as vendas de soja dos EUA e do Brasil para a China em 10 anos Arte/g1 Mas, desde o primeiro governo Trump, iniciado em janeiro de 2017, China e EUA enfrentam disputas comerciais que levaram os chineses a ampliar as compras de soja brasileira. Durante a disputa, os agricultores norte-americanos perderam US$ 27 bilhões (aproximadamente R$ 104 bilhões, na cotação da época) em exportações, segundo a agência de notícias France Presse (AFP).
Na época, o governo Trump concedeu US$ 23 bilhões em subsídios ao setor. "Os Estados Unidos tiveram maior dificuldade nas negociações, o que fez com que os prêmios pela soja brasileira fossem maiores", afirma Beber. O prêmio da soja é a diferença entre a cotação internacional do grão, negociado na Bolsa de Chicago, e o preço pago pelo produto físico nos portos brasileiros.
"Haveria espaço para eles crescerem essa demanda dos EUA, se eles assim entendessem pertinente. Mas eu acho que o principal elemento dessa mudança estrutural em relação ao fornecedor tem a ver com a construção de confiança e entrega", afirma Wachholz. De acordo com a especialista, o Brasil tem capacidade para ampliar sua participação no fornecimento de soja à China e mantém uma relação comercial baseada na confiança.
Isso fortalece a posição brasileira no mercado chinês. Para Wachholz, o risco para o Brasil está na possibilidade de a China ampliar as compras de soja norte-americana para além das 25 milhões de toneladas previstas no acordo. "Aí sim poderia nos prejudicar, porque toda a nossa cadeia foi construída para atender aquele mercado", afirma.
"A relação da China com os Estados Unidos é a relação geopolítica mais importante que existe hoje. Sempre será uma carta na manga o fato de a China ser um mercado tão demandante. Então, ela pode sempre usar isso como instrumento de negociação", diz Wachholz.
Já o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja-MT), Lucas Costa Beber, considera difícil que os EUA voltem a exportar mais de 30 milhões de toneladas de soja para a China. Ele também avalia que a posição do Brasil está consolidada. No ano passado, o Brasil bateu recorde de exportações de soja para a China.
Em 2026, já enviou quase 64 milhões de toneladas, segundo a Aprosoja. O crescimento das vendas beneficiou a economia, afirma Wachholz. "Foi isso que criou renda nas cidades do interior do Brasil.
Isso é ótimo, porque eleva o nível de desenvolvimento do país como um todo. A soja está compondo uma boa parte do PIB brasileiro", diz. As exportações de soja também contribuem para que o Brasil mantenha um superávit comercial com a China, o que é raro, segundo a especialista.
Saiba também: El Niño pode provocar perdas de R$ 33 bilhões na safra de soja do Brasil; entenda os riscos China autossuficiente A China quer reduzir sua dependência de produtos importados. Essa é uma das prioridades do Plano Quinquenal, documento que estabelece as principais metas econômicas e sociais do país para um período de cinco anos. O plano atual prevê aumentar a produção chinesa de alimentos dos quais o Brasil é um dos principais fornecedores, como soja, milho e carne.
Segundo o relatório da Systemiq, os investimentos e as políticas públicas elevaram a produtividade da soja na China em 80% nos últimos 40 anos. Para Patrícia Ellen, as metas chinesas representam um risco maior para o Brasil do que a concorrência comercial com os EUA. Segundo projeções da consultoria, as importações chinesas de soja podem cair cerca de 25% até 2030.
Ellen explica que a redução seria provocada por uma queda na demanda pelo grão. A participação do farelo de soja, por exemplo, deve diminuir de 14,5% para menos de 10% até 2030. "Basicamente, esses 23,5 milhões de toneladas de redução projetada equivalem a praticamente todas as exportações americanas de soja para a China em 2024 ou a um terço das exportações brasileiras destinadas ao país naquele ano", afirma.
Além de reduzir o consumo de farelo de soja, a China pretende tornar a alimentação de bovinos e frangos mais eficiente e incentivar o consumo de outras fontes de proteína, como os pescados. "São grandes apostas que envolvem investimento em muita tecnologia, políticas públicas e transições bastante significativas", diz Ellen. A China também pretende aumentar o uso de aminoácidos sintéticos e proteínas produzidas por bactérias na alimentação animal, diminuindo a necessidade de farelo de soja nas rações.
Para Larissa Wachholz, é importante acompanhar a velocidade com que a China conseguirá colocar essas medidas em prática. "O Brasil precisaria acompanhar se o nível de produtividade da soja vai aumentar ou não. Se passar a usar o transgênico, ela consegue ter algum ganho de produtividade." A especialista defende que o setor brasileiro acompanhe anualmente os avanços da China para avaliar se vale a pena continuar aumentando a produção de soja.
Outra alternativa seria estimular a demanda por produtos derivados do grão, como os biocombustíveis. Já Beber, da Aprosoja, ressalta que a China nem sempre consegue cumprir suas metas e tem ampliado o uso de outros grãos, como o sorgo, na alimentação animal. "Ele é muito utilizado e muito consumido na China.
E o farelo do sorgo acaba competindo com o de soja", explica. Ele também afirma que a produção de aminoácidos sintéticos utiliza derivados de soja e milho. Por isso, mesmo com a redução do consumo de farelo, o uso desses componentes poderia abrir novas oportunidades para os grãos.
Para ele, porém, o maior risco está na baixa taxa de natalidade da China, que pode reduzir a população e, consequentemente, a demanda por soja. Saídas para o Brasil Para Larissa Wachholz, essa dependência das compras chinesas de soja representa um risco para o Brasil. Ainda assim, a especialista avalia que a China também oferece oportunidades de parceria para o agronegócio brasileiro.
"Trazendo tecnologia tanto na parte de biotecnologia, de sementes, de insumos para a agropecuária, produtos de maquinário. Como o Brasil é um grande mercado, a gente pode usar o nosso tamanho para atrair investimentos de setores que vão ajudar a gente a ficar mais competitivo", diz.
Patrícia Ellen afirma que o setor de soja precisa repensar sua estratégia de produção e evitar a expansão da área agrícola, para que a oferta não cresça além da demanda."Você não cria um excedente produtivo que não vai ser consumido em outros mercados." Ela também defende ampliar os usos da soja, como na produção de biocombustíveis e óleo, e buscar acordos comerciais com outros mercados, especialmente na Ásia.
Lucas Beber, da Aprosoja, também vê oportunidades na abertura de novos mercados, como a Índia, onde o crescimento populacional pode aumentar a demanda por proteínas e, consequentemente, por soja. A busca do país por alternativas de menor emissão de carbono, como os biocombustíveis, também pode beneficiar os produtores de soja e milho. "Está tendo uma mudança na cultura mundial também do aumento e da importância do consumo maior de proteínas, isso é uma grande oportunidade para o Brasil", diz.
O presidente da Aprosoja também defende incentivos fiscais para ampliar o consumo de biocombustíveis no Brasil. Segundo ele, a medida ajudaria a aumentar a demanda interna por soja e milho e estimular a indústria nacional. LEIA TAMBÉM 'Rei do Ovo', irmãos Batista e mais: veja quem são os bilionários do agro brasileiro em 2026 Após três anos de alta, pedidos de recuperação judicial no agro caem no 2º trimestre Brasil é o segundo país a proibir produção e comércio de foie gras
