Lula e Flávio Bolsonaro Montagem/g1 A crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF) e o ministro Alexandre de Moraes entrou de vez nos cálculos eleitorais das campanhas de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) e provocou ajustes nas estratégias dos dois candidatos na reta final da disputa pela Presidência. Do lado de Lula, parte dos integrantes da campanha defendem que o assunto seja deixado em segundo plano.
A avaliação é que insistir no episódio envolvendo o Supremo não ajuda o petista a recuperar terreno e que a campanha deve concentrar esforços em propostas e respostas para a economia. Outra ala defende que o presidente assuma uma postura mais crítica à Corte e marque distância de Moraes, embora aliados avaliem que o cargo de presidente limite críticas diretas ao ministro, como mostrou o g1.
Aliados do presidente apontam o preço dos alimentos e a inflação como dois dos principais fatores de desgaste de Lula neste momento. Integrantes da campanha atribuem o crescimento de Flávio entre eleitores de menor renda e entre as mulheres à estratégia do adversário de explorar o custo de vida. A ofensiva de Lula inclui comparar a situação econômica atual com a vivida durante o governo de Jair Bolsonaro.
Entre segunda-feira (14) e esta terça-feira (15), o presidente publicou nas redes sociais dois conteúdos sobre temas que estão no centro da disputa eleitoral: a fome e o preço da carne. Durante o governo de Jair, o Brasil voltou ao mapa da fome, ou seja, o percentual de brasileiros que não tinham certeza de quando fariam a próxima refeição estava acima da média mundial.
Em uma das peças, a campanha contrapõe declarações de Bolsonaro sobre a fome a dados sobre a redução da pobreza e destaca a saída do Brasil do Mapa da Fome. O vídeo termina com falas de Lula afirmando que o combate à miséria é uma das prioridades de seu governo. O conteúdo foi repostado por Lula na segunda-feira.
A leitura ocorre após a pesquisa Quaest mostrar, pela primeira vez desde o início oficial da campanha, Flávio está numericamente à frente de Lula em uma simulação de segundo turno. O senador aparece com 42%, contra 40% do presidente. Como a margem de erro é de dois pontos percentuais, os dois estão tecnicamente empatados.
Entre as mulheres, um dos segmentos em que Lula tinha vantagem mais confortável, a distância diminuiu. Em agosto, o presidente registrava 47% nesse grupo, contra 35% de Flávio. Agora, Lula tem 41% e o candidato do PL, 38%.
Felipe Nunes analisa os últimos dados da pesquisa Quaest para a eleição presidencial Flávio Bolsonaro Na campanha de Flávio, a crise no Supremo é considerada um dos componentes que ajudaram a criar um ambiente favorável ao candidato, embora auxiliares também apontem a economia como o principal acerto da estratégia até agora. Levantamentos internos feitos diariamente pela equipe já vinham indicando crescimento do senador.
Pessoas próximas ao publicitário Duda Lima, responsável pela campanha de Flávio, avaliam que o cenário mais favorável na sessão desta terça seria a abertura de uma investigação contra Moraes, por entenderem que isso prolongaria o desgaste do ministro e sua associação política com Lula. Mesmo que esse cenário não se concretize, a avaliação é de que a imagem de Moraes, associada por parte da população ao atual presidente, já sofreu desgaste suficiente para produzir efeitos na disputa eleitoral.
A estratégia, agora, é tentar manter essa associação sem transformar o Supremo no principal assunto da campanha. Ao comentar o julgamento do STF, Pelas redes sociais, o senador do PL divulgou um vídeo em que afirma que uma parte do Supremo "descumpriu a lei" e, junto ao atual governo federal, faz parte de um "sistema apodrecido". Mais tarde, durante o horário eleitoral gratuito, o candidato replicou o vídeo.
Flávio afirmou que o Brasil precisa de mudanças, criticou a reeleição e reforçou propostas de governo ligadas ao combate à corrupção, economia e soberania. "O atual presidente dividiu o seu poder com Alexandre de Moraes e no fim o Brasil ficou sem presidente nenhum, sem comando", afirmou o senador. Por isso, a equipe de Flávio pretende reforçar as inserções no horário eleitoral sobre o custo de vida e ampliar a produção de conteúdos com o mesmo enfoque.
Uma das peças já prontas mostra o candidato em supermercados, usando o preço dos alimentos para confrontar a gestão Lula. Na campanha de Flávio, a avaliação é que o avanço entre as mulheres, segmento no qual o senador vinha enfrentando maior resistência, contribuiu para seu crescimento nas pesquisas. Diante desse desempenho, aliados do candidato pretendem reforçar, na reta final, o discurso voltado às eleitoras, especialmente em temas relacionados às mulheres e à segurança pública.
A mesma lógica deve orientar a preparação para o debate da TV Globo, no dia 1º de outubro. A intenção é concentrar os ataques em segurança pública, temas ligados às mulheres e custo de vida. O STF deve aparecer de maneira mais limitada.
Há também uma preocupação estratégica por trás dessa escolha: integrantes da campanha avaliam que insistir demais na crise do Supremo pode estimular Lula a explorar o caso "Dark Horse", filme sobre Jair Bolsonaro. Flávio é investigado pela Polícia Federal por suspeitas de irregularidades na captação e na destinação de recursos arrecadados para financiar a produção, o que torna o episódio um ponto de vulnerabilidade para sua campanha.
A estratégia, por isso, é evitar que o assunto ganhe espaço no confronto direto com Lula. Nos últimos dias, os desdobramentos do caso "Dark Horse" levaram Flávio a se manifestar publicamente sobre as investigações. Na quinta-feira (10), chamou de "terceira facada" a operação da Polícia Federal que teve como alvos o deputado Mário Frias (PL-SP) e pessoas ligadas à produção do filme.
A ação foi autorizada pelo ministro Flávio Dino. No dia seguinte, ao comentar o inquérito no qual ele próprio é investigado por suspeitas relacionadas ao financiamento do "Dark Horse", Flávio defendeu a divulgação das informações e afirmou que a transparência confirmaria sua versão sobre o episódio.
Nesta terça, o STF julga se deve ser aberta uma investigação contra Alexandre de Moraes a partir das mensagens atribuídas ao ministro e ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, reveladas no âmbito das investigações do caso Master. O julgamento ocorre em meio ao aumento da pressão sobre a Corte e passou a ser acompanhado também pelos efeitos que pode produzir na reta final da campanha presidencial.
