O que zera a redação do Enem? A inteligência artificial e seus impactos na sociedade, a proteção de crianças nas redes sociais e as consequências das mudanças climáticas estão entre os assuntos que podem aparecer na redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2026, marcada para este domingo (8). As apostas são de professores de redação ouvidos pelo g1.

Entre os temas sugeridos também estão a inclusão de pessoas neurodivergentes, a preservação ambiental, as transformações no mercado de trabalho e a desinformação científica. Embora não seja possível prever qual assunto será escolhido, os especialistas explicam que a prova costuma abordar problemas sociais brasileiros que exigem reflexão crítica, apresentação de argumentos e propostas de solução.

Por isso, mais importante do que tentar adivinhar o tema é compreender os debates que envolvem cada assunto e reunir referências que possam ser utilizadas na construção do texto. A partir das sugestões dos cinco professores, o g1 reuniu 11 temas e eixos que podem ajudar os candidatos na reta final de preparação.

Primeiro dia de provas do Enem acontece neste domingo, em todo o Brasil Marcelo Camargo/Agência Brasil Veja os possíveis temas de redação do Enem 2026 Inteligência artificial e os desafios do uso ético da tecnologia Proteção de crianças e adolescentes nas redes sociais Mudanças climáticas, racismo ambiental e justiça socioambiental Preservação dos biomas brasileiros Poluição por microplásticos e seus impactos Direitos e inclusão das pessoas neurodivergentes Desinformação e confiança na ciência Importância do esporte na sociedade Transformações no mercado de trabalho e direitos dos trabalhadores Cidadania, desigualdade e acesso a direitos fundamentais Consumo, produtividade e relações sociais 1.

Inteligência artificial e os desafios do uso ético da tecnologia A inteligência artificial (IA) está cada vez mais presente na educação, no mercado de trabalho e na circulação de informações. Essa expansão, acompanhada de discussões sobre seus limites e consequências, é um dos motivos pelos quais professores consideram o assunto uma possibilidade para a redação.

Ávila Oliveira, professor de redação do Colégio Unificado, avalia que a proposta pode abordar desde o uso de ferramentas de IA na aprendizagem até a substituição de atividades profissionais pela automação. Outro caminho seria discutir os riscos associados à produção de conteúdos falsos, à manipulação de informações e ao uso indevido de dados pessoais.

O professor piauiense Rógi Almeida, que acertou o tema da redação em 2025, também inclui o uso ético da inteligência artificial entre suas apostas, destacando a necessidade de discutir responsabilidades e limites para a utilização dessas ferramentas. Para se preparar, Ávila recomenda conhecer conceitos como inteligência artificial generativa, algoritmos, deepfakes, vieses algorítmicos, automação e desinformação. 2.

Proteção de crianças e adolescentes nas redes sociais A segurança de crianças e adolescentes no ambiente digital é outro assunto apontado por diferentes professores. Para Ademar Celedônio, diretor de ensino e inovação da Arco Educação, uma possível proposta seria "Desafios para a proteção de crianças e adolescentes nos ambientes digitais brasileiros". O tema ganhou relevância com a aprovação do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), em 2025, e a entrada em vigor da legislação em 2026.

Segundo Celedônio, o uso crescente das tecnologias expõe crianças e adolescentes a situações como cyberbullying, publicidade direcionada, acesso a conteúdos inadequados e coleta indevida de dados pessoais. Daniel Bravo, professor de redação do Cubo Global School, acrescenta que redes sociais e plataformas de jogos utilizam mecanismos para estimular o engajamento e a permanência dos usuários, o que pode favorecer o uso excessivo.

Uma redação sobre o assunto poderia discutir a responsabilidade das famílias, das escolas, do poder público e das empresas de tecnologia na proteção dos menores, além da importância da educação digital. 3. Mudanças climáticas, racismo ambiental e justiça socioambiental As consequências das mudanças climáticas aparecem entre as apostas dos professores, especialmente quando relacionadas às desigualdades sociais.

Enchentes, secas, queimadas e outros eventos extremos permitem discutir por que determinados grupos são mais afetados pelos desastres ambientais e quais medidas podem reduzir esses impactos. Celedônio destaca que a degradação ambiental e os eventos climáticos extremos atingem de maneira mais intensa populações socialmente vulneráveis. "O assunto permite discutir prevenção, planejamento, justiça climática e a responsabilidade compartilhada entre governos, empresas e sociedade", explica.

Rógi Almeida aponta dois possíveis recortes: o racismo ambiental, relacionado à distribuição desigual dos impactos ambientais sobre determinados grupos, e a justiça socioambiental, que envolve a garantia de direitos e a proteção de comunidades vulneráveis. A professora de redação amazonense Valesca Oliveira também inclui o meio ambiente entre os principais eixos de preparação. Segundo ela, o candidato pode estudar questões como acesso à água, produção de resíduos e transição energética.

Uma proposta nessa área permitiria discutir políticas de prevenção de desastres, planejamento urbano, fiscalização de áreas de risco e adaptação das cidades às mudanças climáticas. 4. Preservação dos biomas brasileiros A proteção dos ecossistemas brasileiros é outra possibilidade destacada pelo professor Rógi Almeida, com atenção especial ao Cerrado.

Diferentemente de uma proposta mais ampla sobre mudanças climáticas, esse tema permitiria concentrar a discussão nos desafios para preservar a biodiversidade e conciliar a proteção ambiental com as atividades econômicas. Entre os caminhos possíveis estão o combate ao desmatamento, a prevenção de queimadas e a responsabilidade do poder público na conservação dos diferentes biomas.

Para Almeida, temas ambientais merecem atenção especial porque permitem relacionar a preservação da natureza à garantia de direitos e à qualidade de vida da população. 5. Poluição por microplásticos e seus impactos Presentes em diferentes produtos do cotidiano, os plásticos também podem ser o ponto de partida para uma discussão ambiental.

Daniel Bravo acredita que a poluição por microplásticos oferece uma oportunidade para refletir sobre o consumo, a produção em larga escala e o descarte inadequado de resíduos. O professor lembra que essas partículas já foram identificadas em animais, alimentos e no corpo humano, além de estarem associadas à degradação dos ecossistemas. A proposta poderia explorar tanto os impactos sobre a biodiversidade quanto as preocupações relacionadas à saúde humana.

Outro aspecto seria discutir alternativas para reduzir o consumo e o descarte de materiais plásticos, considerando a ampla utilização desses produtos pela sociedade. 6. Direitos e inclusão das pessoas neurodivergentes As dificuldades enfrentadas por pessoas neurodivergentes na educação, no trabalho e na convivência social também aparecem entre os possíveis temas.

Celedônio lembra que pessoas com transtorno do espectro autista (TEA), transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), dislexia e outras condições podem enfrentar barreiras educacionais, profissionais, comunicacionais e sensoriais. Para o especialista, embora existam avanços na legislação, a inclusão depende de mudanças que vão além do reconhecimento formal de direitos.

"Avanços legislativos recentes indicam novos caminhos, mas a inclusão real depende de mudanças culturais, formação profissional e eliminação de preconceitos", afirma. Uma redação poderia abordar a necessidade de adaptação de escolas e ambientes profissionais, a formação de educadores, o acesso ao diagnóstico e o combate ao capacitismo. O Enem já tratou de um assunto relacionado em 2020, quando a proposta abordou o estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira.

7. Desinformação e confiança na ciência A disseminação de notícias falsas, especialmente sobre questões de saúde, é outra possibilidade apontada pelos professores. Segundo Celedônio, a circulação de informações enganosas pode comprometer decisões individuais e políticas públicas, tornando a confiança nas instituições científicas um assunto relevante para a sociedade.

"A pandemia mostrou a importância da ciência. O tema permite discutir comunicação científica, educação, transparência e combate à desinformação", afirma. Nesse caso, o candidato poderia abordar a circulação de notícias falsas sobre vacinas e tratamentos, a importância das universidades e instituições de pesquisa e a necessidade de tornar informações científicas mais acessíveis à população.

Valesca também inclui a desinformação e a confiança pública entre os possíveis recortes de redação ligados à tecnologia. 8. Importância do esporte na sociedade A realização da Copa do Mundo masculina em 2026 e a proximidade da Copa do Mundo feminina, que será sediada pelo Brasil em 2027, colocam o esporte entre as possibilidades de discussão.

Para Ávila Oliveira, a proposta não precisaria se limitar ao futebol ou às grandes competições. "Mais do que uma atividade competitiva, o esporte contribui para a saúde, fortalece vínculos e pode ampliar as oportunidades oferecidas a crianças e adolescentes", avalia. Segundo o professor, a redação poderia explorar a dificuldade de acesso às práticas esportivas, o esporte como instrumento de inclusão social e os desafios relacionados à saúde mental dos atletas.

Outros aspectos possíveis são o combate ao racismo e ao capacitismo nas modalidades esportivas, as desigualdades de acesso e a necessidade de políticas públicas de incentivo à prática de atividades físicas. 9. Transformações no mercado de trabalho e direitos dos trabalhadores As mudanças nas relações de trabalho também aparecem entre os eixos sugeridos para a redação de 2026.

Valesca Oliveira destaca que o mercado de trabalho brasileiro oferece diferentes possibilidades de discussão, como a informalidade, a precarização das relações de emprego e as jornadas extensas. A professora também aponta os impactos dessas condições sobre a saúde dos trabalhadores. Outro recorte possível é a automação de atividades profissionais e a influência das novas tecnologias sobre a geração de empregos.

A proposta permitiria refletir sobre a necessidade de conciliar desenvolvimento econômico, condições dignas de trabalho e proteção social. 10. Cidadania, desigualdade e acesso a direitos fundamentais A dificuldade de acesso a direitos básicos, especialmente entre grupos socialmente vulneráveis, é outro eixo considerado relevante.

Segundo Valesca, uma proposta sobre cidadania poderia abordar problemas ligados à educação, à saúde coletiva, à segurança pública e à desigualdade social. O ponto central seria discutir as diferenças entre os direitos previstos na legislação e as condições concretas para que a população consiga exercê-los. A professora destaca que esse eixo permite reunir diferentes repertórios sobre desigualdade educacional, acesso a serviços públicos e proteção de grupos vulneráveis.

A Constituição Federal pode servir como referência para a construção dos argumentos, assim como políticas públicas relacionadas à garantia de direitos. 11. Consumo, produtividade e relações sociais A aceleração da rotina e seus efeitos sobre a convivência social completam a relação de assuntos sugeridos pelos especialistas.

Valesca Oliveira aponta que uma redação poderia discutir a pressão por produtividade, a organização do tempo livre e a solidão nas grandes cidades. Nesse eixo, o candidato poderia refletir sobre como as exigências profissionais e os padrões de consumo interferem nas relações pessoais e na qualidade de vida. A discussão também abre espaço para abordar o equilíbrio entre trabalho e descanso, o acesso ao lazer e as consequências sociais de uma rotina marcada pela cobrança constante por desempenho.

Como se preparar para a redação na reta final? Apesar das apostas, os professores reforçam que nenhum dos temas está confirmado e que a melhor estratégia é estar preparado para desenvolver uma argumentação consistente sobre diferentes problemas sociais. Para Valesca, vale concentrar os últimos treinos nos eixos de tecnologia e meio ambiente, sem abandonar o repertório sobre os demais assuntos.

"Treine a estrutura principalmente nas apostas de tecnologia e meio ambiente, que são os dois de maior probabilidade. Mantenha os outros eixos cobertos apenas no nível de repertório já mapeado, para escrever sobre qualquer tema sem precisar improvisar", orienta. Rógi Almeida recomenda acompanhar debates sociais, notícias e projetos discutidos no Congresso Nacional, além de recorrer a referências da literatura brasileira, da história, da sociologia e da filosofia.

O professor ressalta que uma boa redação precisa apresentar uma tese clara, desenvolver argumentos fundamentados e terminar com uma proposta de intervenção que indique quem deve agir, o que precisa ser feito e de que forma. Para ele, mesmo quando o assunto estudado não é exatamente o escolhido pelo exame, o repertório adquirido pode ajudar o estudante a construir o texto. "Com certeza, se não vier o tema, mas pelo menos o eixo temático, eles vão ter acesso a repertórios sobre os quais já fizeram redações", afirma.

Horários da prova Os horários oficiais do Enem seguem o fuso de Brasília. No Amazonas, a aplicação ocorre uma hora mais cedo. Abertura dos portões: 11h Fechamento dos portões: 12h Início da prova: 12h30 Término no primeiro dia: 18h Término no segundo dia : 17h30 O candidato só poderá sair do local com o Caderno de Questões nos últimos 30 minutos antes do encerramento da prova.